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quinta-feira, novembro 20, 2003

PENSAMENTO DO DIA 

A melhor maneira de parar é seguir uma ideia fixa

quarta-feira, novembro 19, 2003

LET IT BE: A OBRA MALDITA DOS BEATLES 


LET IT BE: Two Of Us (3:36) – Dig A Pony (3:54) – Across The Universe (3:48) – I Me Mine (2:25) – Dig It (0:51) - Let It Be (4:03) – Maggie Mae (0:39) – I’ve Got A Feeling (3:37) – One After 909 (2:55) – The Long And Winding Road (3:37) – For You Blue (2:32) – Get Back (3:07)


LET IT BE… NAKED: Get Back (2:34) – Dig A Pony (3:38) – For You Blue (2:28) – The Long And Winding Road (3:34) – Two Of Us (3:21) – I’ve Got A Feeling (3:30) – One After 909 (2:44) – Don’t Let Me Down (3:19) – I Me Mine (2:21) – Across The Universe (3:38) – Let It Be (3:54)


Trinta e três anos depois a maldição parece continuar a existir – ao contrário do que a publicidade insiste em dizer, esta não é a versão “despida” do album original (as diferenças vão um pouco mais além da eliminação dos arranjos de Phil Spector...) nem muito menos a “melhor” versão. Mas vamos por partes, e recuemos um pouco no tempo.

Outubro de 1968: Acabadas as gravações dos temas que iriam constituir o chamado White Album, John Lennon começou a sentir a necessidade de simplificar os meios de produção e o desejo de gravar um album à moda antiga, com um som directo e básico, sem quaisquer efeitos de estúdio. Paul concordou indo ainda um pouco mais longe: e porque não filmar os Beatles em estúdio a gravarem o novo album? Meu dito meu feito, e as filmagens começaram no dia 2 de Janeiro de 1969 para virem a terminar a 30 desse mês com a famosa actuação no telhado dos estúdios da Apple, em Saville Row.

Devendo inicialmente chamar-se “Get Back”, o album seria constituído pelos seguintes temas: One After 909, Save The Last Dance For Me, Don’t Let Me Down, Dig A Pony, I’ve Got A Feeling, Get Back, For You Blue, The Walk, Teddy Boy, Two Of Us, Maggie Mae, Dig It, Let It Be e The Long And Winding Road.
Allen Klein, que tinha sido contratado no início de Fevereiro para tomar conta dos negócios dos Beatles, sugeriu que o filme, já rodado em 16 mm, fosse convertido para 35 mm, o que possibilitaria a sua passagem nos cinemas e não apenas na televisão. Assim, o album, que funcionaria como uma espécie de banda sonora, deveria aguardar a conclusão do trabalho para ser lançado simultâneamente com o filme.

Entretanto diversos factos vão acontecendo na vida dos 4 Beatles: Paul casa-se com Linda Eastman a 12 de Março e vai para a América em lua-de-mel; John segue-lhe o exemplo uma semana depois, desposando Yoko Ono em Gibraltar e iniciando de imediato o célebre bed-in em Amsterdam; Ringo começa a filmar “The Magic Christian”; George vai tocando em diversos albuns (de Jack Bruce, dos Cream, de Billy Preston); Paul produz o 1º album de Mary Hopkin (“Post Card”); John e Yoko começam a gravar temas para um segundo album experimental (“Unfinished Music nº 2: Life With The Lions”) e promovem a difusão, um pouco por todo o lado, do filme “Rape”, também ele experimental; são editados mais dois singles dos Beatles: “Get Back/Don’t Let Me Down” a 11 de Abril e “The Ballad of John and Yoko/Old Brown Shoe” a 30 de Maio.

Tudo isto vai esmorecendo o interesse pelos temas gravados durante todo o mês de Janeiro (que seriam em breve difundidos em inúmeras edições pirtas) e em Junho os Beatles iniciam as gravações daquele que viria ser a sua derradeira coroa de glória, o magnífico “Abbey Road”.

Dada a falta de tempo, John Lennon convida o produtor Phil Spector a criar um novo album a partir das gravações de Janeiro, alterando o nome para “Let It Be”. Spector inicia então uma pesquisa por dezenas de horas de gravações (cada tema tinha variadissimas versões), dando largas aos seus excessos criativos. O produto final acaba por ficar pronto apenas depois dos Beatles editarem “Abbey Road” a 26 de Setembro. E a primeira edição, especial (numa caixa com um livro), é editada já em 1970, no dia 8 de Maio, um mês depois de Paul ter anunciado a dissolução do grupo. As vendas não são famosas e seis meses depois, a 6 de Novembro, o album é re-editado, agora já sem o livro.

Ao longo dos anos “Let It Be” ficou sempre ligado à tristeza da separação e com o estigma do album rejeitado, do “filho ilegítimo”. E pelos vistos continua, pois o agora editado “Let It Be... Naked” (péssimo título para uma capa também ela vergonhosa) está longe de agradar a gregos e a troianos. Mas vejamos então as diferenças. De um modo geral, pode dizer-se que o som proveniente da nova remasterização é bastante superior ao original. Só que… as faixas não são exactamente as mesmas. “Maggie Mae” e “Dig It” (que funcionavam mais como separadores do que como verdadeiras canções) desapareceram, dando lugar a "Don’t Let Me Down”, na versão tocada no telhado da Apple Studios e que está a anos-luz da versão de estúdio editada em single. Todos os temas incluídos em “... Naked” são de duração inferior à do album original, em virtude de todas as introduções e finais terem sido inexplicavelmente abolidos. Não se entende muito bem esta decisão, até porque se tratava de uma imagem de marca do album original. “Get Back”, que até tem agora um som magnífico, soa como inacabada – já não termina com John a dizer “I’d like to say thank you on behalf of the group and ourselves. I hope we’ve passed the audition” e falta-lhe o verso final incluído na versão de estúdio. “The Long and Winding Road” é uma gravação completamente diferente (julgo que se trata da versão incluída no filme). Neste caso particular penso que Phil Spector conseguiu entender melhor que ninguém o tipo de canção que tinha entre mãos; e a introdução das cordas e dos coros veio efectivamente a enriquecer o tema, dando-lhe aquela áurea de grandiloquência do album original. Nesta versão agora editada em “... Naked”, a voz de Paul não está tão segura e o acompanhamento pura e simplesmente não resulta. Chega a parecer um ensaio para a encenação final. “Across The Universe” , pelo contrário, consegue soar bastante melhor sem os arranjos de Spector mas fica muito aquém da versão editada originalmente no album de beneficiência “No One’s Gonna Change Our World” (a mesma que figura no cd “Past Masters 2”), em Dezembro de 1969. Iniciando-se e terminando com sons de pássaros a esvoaçarem no sistema stereo, a canção tinha um trio de coros (Paul e duas vozes femininas) e um arranjo que acentuava muito mais o lado onírico da canção. “I’ve Got A Feeling” é uma nova edição, que junta duas versões diferentes, ambas tocadas no sessão do telhado e que soa também muito melhor do que o original. Finalmente “Let It Be”, que é practicamente a versão editada em single com o som bastante melhorado. Quanto aos restantes 5 temas as gravações são as mesmas do album “Let It Be”, apresentando apenas as diferenças já referidas.

No final fica a sensação que muito mais poderia ter sido feito para reabilitar “Let It Be”. Deste modo, ficou-se apenas a meio caminho. Talvez num futuro próximo, quando toda a obra dos Beatles for de novo reeditada (num muito provável formato SACD) se faça finalmente justiça.

terça-feira, novembro 18, 2003

BEIJO 


Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

(Jorge De Sena in "Exorcismos", 1972)

quarta-feira, novembro 12, 2003

SONDAGENS 

Parece que os portugueses estão muito animados com a adesão a uma constituição europeia única – segundo uma recente sondagem, cerca de 90 % dos inquiridos dão o seu inequívoco SIM! Só que..., só que na mesma sondagem, vem lá também uma alíneazita com uma interessante conclusão: desses mesmos portugueses, mais de 50 % não faz a mínima ideia do que seja essa coisa da constituição europeia...!
Enfim, que dizer deste país à beira-mar plantado? Não parece terem já passado quase 30 anos desde Abril 25. Continuamos um bando de analfabetos e provincianos em que o que vem lá de fora é que é bom, independentemente do que quer que de lá venha...
Se calhar a solução passaria mesmo pela preconizada pelo Saramago na sua jangada de pedra. Mas eu iria mais longe ainda: deixava ficar a Espanha sossegada, lá bem agarradinha à Europa e só o rectângulo luso se faria ao mar. Mas para não encalhar, para continuar sempre a navegar – teria a enorme vantagem de ninguém saber do nosso paradeiro e escaparmos assim às sondagens...

domingo, novembro 09, 2003

ESCUTA PERMANENTE 

THE CLOSEST THING TO CRAZY
(Mike Batt)

How can I think I'm standing strong,
Yet feel the air beneath my feet?
How can happiness feel so wrong?
How can misery feel so sweet?
How can you let me watch you sleep,
Then break my dreams the way you do?
How can I have got in so deep?
Why did I fall in love with you?

CHORUS:

This is the closest thing to crazy I have ever been
Feeling twenty-two, acting seventeen,
This is the nearest thing to crazy I have ever known,
I was never crazy on my own:
And now I know that there's a link between the two,
Being close to craziness and being close to you.

How can you make me fall apart
Then break my fall with loving lies?
It's so easy to break a heart;
It's so easy to close your eyes.
How can you treat me like a child
Yet like a child I yearn from you?
How can anyone feel so wild?
How can anyone feel so blue?

CHORUS


LEARNIN' THE BLUES

(Dolores Silver)

The tables are empty
the dance floor's deserted
You play the same love song
it's the tenth time you've heard it
That's the beginning - just one of the clues
You've had your first lesson
in learnin' the blues

The cigarettes you light
one after another
Won't help you forget her
and the way that you love her
You're only burning
a torch you can't lose
But you're on the right track
for learnin' the blues

When you're at home alone
the blues will taunt you - constantly
When you're out in a crowd
the blues will haunt your memory

The nights when you don't sleep
the whole night you're crying
You just can't forget her
soon you even stop trying
You'll walk the floor
and wear out your shoes
When you feel your heart break
you're learnin' the blues.


(Katie Melua, November 2003)


DISCOTECA BÁSICA 

CALL OFF THE SEARCH (KATIE MELUA, 2003)


(Call Off The Search – Crawling Up A Hill – The Closest Thing To Crazy – My Aphrodisiac Is You – Learnin’ The Blues – Blame It On The Moon – Belfast – I Think It’s Going To Rain Today – Mockingbird Song – Tiger In The Night – Faraway Voice – Lilac Wine)


CD editado em 3 de Novembro de 2003 (Dramatico; DRAMCD0002 )



Atenção, muita atenção a este nome, esta voz, esta imagem! Trata-se de uma das mais promissoras revelações no mundo da canção dos últimos tempos. Nascida há 19 anos na antiga União Soviética, em Georgia, Katie Melua cresceu na Irlanda do Norte, em Belfast, mudando-se depois para Londres, onde aos 15 anos ganhou um concurso televisivo interpretando a canção “Without You”, de Harry Nilsson. Fan dos Queen, Joni Mitchell, Bob Dylan, Ella Fitzgerald e sobretudo da malograda Eva Cassidy (para quem compôs uma canção de homenagem, incluída neste seu primeiro disco), Katie foi descoberta pelo compositor e produtor discográfico Mike Batt, com o qual assinou um contrato para a gravação de cinco albuns. O primeiro aqui está – um disco magnífico, recheado de belíssimas canções (metade delas com a assinatura de Batt) e harmonizando correntes musicais tão diversas como o jazz, o soul ou o blues. O cd traz ainda um video promocional com excertos de uma entrevista e algumas canções. Quer o album quer o primeiro single dele extraído (“The Closest Thing To Crazy”) entraram directamente para o 3º lugar das tabelas de venda inglesas.

Site oficial: www.katiemelua.com

PENSAMENTO DO DIA 

Se não consegues convencê-los, confunde-os.

sábado, novembro 01, 2003

ESCUTA PERMANENTE 

ATTICS OF MY LIFE
(Robert Hunter/Jerry Garcia)

In the attics of my life, full of cloudy dreams unreal.
Full of tastes no tongue can know, and lights no eyes can see.
When there was no ear to hear, you sang to me.

I have spent my life seeking all that's still unsung.
Bent my ear to hear the tune, and closed my eyes to see.
When there was no strings to play, you played to me.

In the book of love's own dream, where all the print is blood.
Where all the pages are my days, and all the lights grow old.
When I had no wings to fly, you flew to me, you flew to me.

In the secret space of dreams, where I dreaming lay amazed.
When the secrets all are told, and the petals all unfold.
When there was no dream of mine, you dreamed of me.


(The Grateful Dead, 1970, Novembro)

DISCOTECA BÁSICA 

WORKINGMAN’S DEAD (GRATEFUL DEAD, 1970)


(Uncle John’s Band – High Time – Dire Wolf – New Speedway Boogie – Cumberland Blues – Black Peter – Easy Wind – Casey Jones)

LP editado em 14 de Junho de 1970 nos EUA (Warner Bros,1869; #27)
LP editado em Setembro de 1970 na GB (Warner Bros, 1869)
CD remasterizado (HDCD) editado em 10 de Março de 2003 (Rhino 8122743962), com os seguintes temas adicionais: New Speedway Boogie (alternate mix), Dire Wolf (live), Black Peter (live), Easy Wind (live), Cumberland Blues (live), Mason’s Children (live) e Uncle John’s Band (live)


AMERICAN BEAUTY (GRATEFUL DEAD, 1970)


(Box Of Rain – Friend Of The Devil – Sugar Magnolia – Operator – Candyman – Ripple – Brokedown Palace – Till The Morning Comes – Attics Of My Life – Truckin’)

LP editado em Novembro de 1970 nos EUA (Warner Bros, 1893; #30)
LP editado em Dezembro de 1970 na GB (Warner Bros, 1893)
CD remasterizado (HDCD) editado em 10 de Março de 2003 (Rhino 8122743972), com os seguintes temas adicionais: Truckin’ (single version), Friend Of The Devil (live), Candyman (live) e Till The Morning Comes (live)

Nestes dois albuns separados apenas por seis meses, os Dead enveredam por novas sonoridades, surpreendendo tudo e todos. O psicadelismo e as longas improvisações dos últimos anos da década de 60 dão lugar a um punhado de canções breves, enraizadas na música tradicional americana, como o folk, o blues ou o country. Aproximam-se melodicamente do universo então muito em voga de grupos como os Crosby, Stills, Nash & Young e conseguem deste modo ganhar novas legiões de fans em todo o mundo. Julgo até que foram estes dois albuns que acabaram de vez com a dicotomia existente até essa altura, entre os que idolatravam ou simplesmente detestavam os Grateful Dead. A partir dali deixou de haver razão apenas para o 8 ou o 80 e os extremos foram aproximando-se cada vez mais. Trinta anos depois estes dois albuns, harmonicamente muito belos, continuam a ouvir-se com um sorriso de felicidade nos lábios, sobretudo o segundo, que se mantém como uma das obras-primas absolutas do universo pop/rock.

PENSAMENTO DO DIA 

Em assuntos de amor são os loucos quem tem mais experiência.
Sobre o amor, não perguntes nada aos sensatos: os sensatos amam sensatamente, o que equivale a nunca ter amado.

ESCUTA PERMANENTE 

ALL ALONG THE WATCHTOWER
(Bob Dylan)

"There must be some way out of here," said the joker to the thief,
"There's too much confusion, I can't get no relief.
Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth,
None of them along the line know what any of it is worth."

"No reason to get excited," the thief, he kindly spoke,
"There are many here among us who feel that life is but a joke.
But you and I, we've been through that, and this is not our fate,
So let us not talk falsely now, the hour is getting late."

All along the watchtower, princes kept the view
While all the women came and went, barefoot servants, too.

Outside in the distance a wildcat did growl,
Two riders were approaching, the wind began to howl.


(Jimi Hendrix Experience, 1968)

sexta-feira, outubro 31, 2003

DISCOTECA BÁSICA 

ELECTRIC LADYLAND (JIMI HENDRIX EXPERIENCE, 1968)

(And The Gods Made Love – Electric Ladyland – Crosstown Traffic – Voodoo Chile – Little Miss Strange – Long Hot Summer Night – Come On – Gipsy Eyes – Burning Of The Midnight Lamp – Rainy Day, Dream Away – 1983 (A Merman I Should Turn To Be) – Moon, Turn The Tides…Gently Gently Away – Still Raining Still Dreaming – House Burning Down – All Along The Watchtower – Voodoo Chile (Slight Return))

LP duplo editado em Outubro de 1968 nos EUA (POLYDOR TrackRecord 6307; #1)
LP duplo editado em Novembro de 1968 na GB (POLYDOR TrackRecord 613008-9; #6)
CD editado em 28 de Abril de 1997 (MCA)

Histórico duplo album gravado por Jimi Hendrix entre Julho de 67 e Agosto de 68, em plena liberdade de criação artística. Foi a despedida da Experience enquanto banda (com Mitch Mitchell e Noel Redding) e a ascendência definitiva de Hendrix à glória eterna. Inclui a versão do tema de Dylan “All Along The Watchtower” que o prório autor viria a adoptar em futuros concertos.

NOTA: A capa original, editada na Grã-Bretanha, e da autoria de David King (com fotografias de David Montgomery), é a famosa “gratefold naked women” que viria a ser proibida nos Estados Unidos (sempre uns moralistas estes americanos...). Dada a raridade desta capa fiz um scanner do album original que felizmente ainda por aqui mora. Basta clicar na imagem para se aceder à imagem ampliada.

quinta-feira, outubro 30, 2003

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

C’ERA UNA VOLTA IL WEST (ONCE UPON A TIME IN THE WEST) /
ACONTECEU NO OESTE
[POSTER]

Estreia em Itália: 1968, Dezembro 21
Estreia nos EUA: 1969, Maio 28
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Argumento: Sergio Donati e Sergio leone, segundo história de Bernardo Bertolucci, Dario Argento e Sergio Leone.
Cinematografia: Tonino Delli Colli
Montagem: Nino Baragli
Música Original: Ennio Morricone
Direcção Artística: Carlo Simi
Cenários: Rafael Ferri e Carlo Leva (não creditado)
Guarda-Roupa: Antonella Pompei e Carlo Simi

CAST:

Claudia Cardinale .... Jill McBain
Henry Fonda .... Frank
Jason Robards .... Manuel 'Cheyenne' Gutierrez
Charles Bronson .... Harmonica
Gabriele Ferzetti .... Morton (railroad baron)
Paolo Stoppa .... Sam
Woody Strode .... Stony (member of Frank's gang)
Jack Elam .... Snaky (member of Frank's gang)
Keenan Wynn .... Flagstone sheriff
Frank Wolff .... Brett McBain
Lionel Stander .... Barman
etc.
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Encomenda feita a Sergio Leone como condição necessária para que ao director italiano fosse autorizada a realização do projecto “Once Upon A Time In America” (filme que seria a sua derradeira obra, já nos anos 80), este western-súmula de todos os westerns viria a tornar-se um dos mais amados clássicos do género.
Escrito intencionalmente por Bertolucci e Argento como homenagem aos westerns mais célebres (onde pontificam, pela referência mais óbvia, “High Noon”, “Johnny Guitar” ou “The Iron Horse”), “Once Upon A Time In The West” é um autêntico bailado operático, onde a música de Morricone e as imagens de Tonino Delli Colli coreografam sequências admiráveis em que a lentidão de processos atinge picos inusitados de uma beleza sufocante, raras vezes transmitida com tamanha carga hipnótica de encantamento.
«Para mim», disse Leone na altura, «a banda sonora é o verdadeiro diálogo do filme. Nesse sentido, Ennio é o meu melhor argumentista». Na realidade, e contrariamente ao usual procedimento em cinema, Morricone compôs toda a música (um tema distinto para cada personagem) antes até das filmagens se iniciarem, o que permitiu que a música acompanhasse ao vivo a maior parte da rodagem. Daí talvez a explicação pela sensação constante de estarmos perante um espectáculo de acentuado cunho operático. Mesmo quando a música é substituída por sons, como na inesquecível sequência de abertura. Assim, e uma vez mais, Leone prefere contar a sua história em termos essencialmente visuais, o que só engradece a obra em termos cinemáticos (em todos os grandes filmes da história do cinema se pode constatar esta preferência pelo olhar, em detrimento da palavra).
No que diz respeito ao elenco, Leone desenvolveu pela primeira vez um personagem feminino forte, à volta do qual todo o filme se constrói, e a que Claudia Cardinale transmite uma dimensão épica de pioneira do novo oeste. Jason Robards está magnífico e Charles Bronson nunca foi filmado desta maneira em toda a sua carreira. Mas a grande surpresa é sem dúvida Henry Fonda, que aqui cria uma das figuras mais sádicas da história do cinema, ele que até então personificava sempre os maiores heróis americanos. De tal modo a sua interpretação foi conseguida que a cena do assassínio da criança foi sistematicamente cortada em todas as exibições comerciais do filme nos Estados Unidos. É que os americanos sempre gostaram muito de preservar os seus mitos pessoais...
Como seria de esperar, o filme foi na altura da sua estreia um autêntico fracasso. Sobretudo nos Estados Unidos, onde mais uma vez uma obra de arte foi mutilada (em cerca de 20 minutos) em nome do comércio e do lucro fácil. A versão completa foi apenas exibida em França, onde, aí sim, o filme começou a ganhar rapidamente um público fiel que o iria transformar num objecto de culto e arte. Hoje, e como geralmente o tempo é bom conselheiro, “Once Upon A Time In The West” figura quase sempre nas listagens dos melhores filmes de sempre, tendo mesmo um lugar cativo no Top 10 dos melhores westerns.
A edição especial de coleccionador vinda agora a público em duplo DVD é um pequeno tesouro, pois além da completa e magnífica remasterização digital do filme, oferece-nos ainda uma série de extras, entre os quais se destacam um trio de documentários (legendados em português) sobre a produção, o realizador e o elenco e um comentário áudio brilhante do historiador de cinema Sir Christopher Frayling (onde transparece toda a fascinação sentida pela obra em análise) ao qual se juntam também outras pessoas ilustres da sétima arte: John Carpenter, Bernardo Bertolucci, John Milius e até a própria Claudia Cardinale.



CURIOSIDADES:

Al Mulock, que interpreta um dos três pistoleiros da sequência de abertura, veio a suicidar-se durante as filmagens.

Henry Fonda, que de início não queria entrar no filme, foi convencido por Leone que o queria pela primeira vez a interpretar um personagem malévolo, nada condizente com a imagem a que o actor tinha habituado o seu público. Como consequência, o cinema ganhou para o seu album de memórias, um dos mais frios e sinistros vilões da história. Outro pormenor, ilustrativo da perspicácia de Leone, foi o facto do realizador querer aproveitar a cor dos olhos do actor, o qual pretendia usar lentes de contacto para os escurecer.

Leone pretendia reunir os três actores de " The Good, The Bad and The Ugly" (Clint Eastwood, Lee Van Cleef and Eli Wallach) para interpretarem apenas a célebre sequência inicial (sendo mortos por Harmonica ao fim dos primeiros 15 minutos). Mas dada a indisponiblidade de Clint Eastwood abandonou a ideia.

CITAÇÕES MEMORÁVEIS:

Harmonica: And Frank?
Snaky: Frank sent us.
Harmonica: Did you bring a horse for me?
Snaky: Well... looks like we're...
[snickers]
Snaky: ... looks like we're shy one horse.
Harmonica: You brought two too many.

Frank: People scare better when they're dyin'.

Harmonica: Your friends have a high mortality rate Frank.

Frank: You're the one who makes appointments.
Harmonica: And you're the one who doesn't keep them.

Frank: How can you trust a man who wears both a belt and suspenders? The man can't even trust his own pants!

Cheyenne: Do you know anything about a guy going around playing the harmonica? He's someone you'd remember. Instead of talking, he plays. And when he better play, he talks.

Cheyenne: Harmonica! A town... built around a railroad. You could make a fortune. Hundreds of thousands of dollars. Hey, more than that. Thousands of thousands.
Harmonica: They call them "millions."
Cheyenne: "Millions." Hmm.

Harmonica: I saw three of these dusters a short time ago, they were waiting for a train. Inside the dusters, there were three men.
Cheyenne: So?
Harmonica: Inside the men, there were three bullets.

Cheyenne: You know, Jill, you remind me of my mother. She was the biggest whore in Alameda and the finest woman that ever lived. Whoever my father was, for an hour or for a month - he must have been a happy man.

Jill: What's he waiting for out there? What's he doing?
Cheyenne: He's whittlin' on a piece of wood. I've got a feeling when he stops whittlin'...Somethin's gonna happen.

Frank: Keep your lovin' brother happy!

Jill: You saved his life.
Harmonica: I didn't let them kill him, and that's not the same thing.

Frank: Nothing matters now - not the land, not the money, not the woman. I came here to see you. 'Cause I know that now, you'll tell me what you're after.
Harmonica: ....Only at the point of dyin'.

Jill: If you want to, you can lay me over the table and amuse yourself. And even call in your men! Well. No woman ever died from that. When you're finished, all I'll need will be a tub of boiling water, and I'll be exactly what I was before - with just another filthy memory!
Cheyenne: [sighs] You make good coffee, at least?

Cheyenne: They wanna hang me! The big, black crows. Idiots. What the hell? I'll kill anything. Never a kid. Be like killin' a priest. Catholic priest, that is.

Morton: There are many things you'll never understand.
[Frank draws on Morton as he pulls out money to show him.]
Morton: This is one of them. You see, Frank, there are many kinds of weapons. And the only one that can stop that is this.

Cheyenne: Hey, Harmonica. When they do you in, pray it's somebody who knows where to shoot.

quarta-feira, outubro 29, 2003

TENTAREMOS PASSAR 

Os meus dedos costumam andar loucos
sobre a tua pele
ou folheando livros
ou segurando com impaciência
os auscultadores dos telefones.
Já alguma vez reparaste nos meus dedos?
Eles vieram do fundo de um rio de prata
como a Excalibur
e um dia hão-de lá voltar manchados de sangue,
talvez já rugosos e sem harmonia
incapazes
frios
tolerantes.
Por enquanto eles abrem brechas
derrubam árvores e cavam trincheiras
constroem cercas para o amor
alisam as penas do medo
e pagam adiantado o serviço do corpo que os mantêm vivos
capazes de acusar
de perdoar
de colocar um rastilho de dinamite na boca do silêncio
de violentar qualquer noite
escorando os túneis que vão dar à insatisfação e ao inferno.



Se os meus dedos segurarem os teus
o que é que de novo acontece?
Construiremos uma casa, uma cabana, um palácio?
Repetiremos o percurso até à exaustão?
Quero acreditar que desconheço o caminho
e que a sua erva terá aos nossos pés uma nova resposta.
É aliciante pensar que chegaremos onde
ainda hoje não poderemos pensar.
Não adianta encher as mãos.
Quando há que caminhar-se muito
não convém demasiado peso.
Já basta o coração.
Ele transportará a inquietação,
carregará todas as dúvidas,
e talvez tropece na sua própria angústia
ou fique preso na armadilha.

De qualquer modo, dá-me as tuas mãos.
Aqui tens as minhas.
Tentaremos passar.


(Joaquim Pessoa in “125 Poemas”, 1982)

terça-feira, outubro 28, 2003

EU TENHO UM PÁSSARO, DENTRO DA MINHA MÃO 



Falas. E a tua voz é como uma espada, decepando flores azuis, que são um eco da minha resposta sem palavras (às vezes, é no calar que ficam as grandes respostas e as grandes verdades).
Eu tenho um pássaro, dentro da minha mão. Comi-lhe as asas e de vez em quando voo; habito então corpos dilacerados de esperar e almas mutiladas de desespero. Ouço-me dizer: «Dá de beber ao tédio, e sente-te livre!». E assim é. E assim faço. E assim vou entretendo esta impaciência de viver...
Tu, tu és simples, como as flores selvagens que crescem livremente nos campos onde a liberdade é isso, sem mais nada. Sem palavras, sem livros, sem pensamentos, sem influências...; ela é, e isso é tudo! E tu és tudo, por isso mesmo! E invejo-te por o seres e nem disso teres a consciência, tal a tua inocência, tal a tua maravilhosa simplicidade, tal a limpidez da tua permanência neste rio barrento em que vamos seguindo todos, imitando a vida, imitando a felicidade, imitando a ternura, imitando..., imitando tudo! E que mais? O mais, o mais é essa luz indefinida que ao teu olhar pertence, e onde a cor continua por acontecer. E eu canto, canto esse brilho que me banha como uma estrela. Canto, e ao mesmo tempo choro – sem lágrimas é certo, mas para dentro, que é como quem diz, a sorrir...
Mas tenho um pássaro, dentro da minha mão. Comi-lhe a cabeça e de vez em quando chilreio; timidamente, mas chilreio. Ou não sabias que há qualquer coisa de pássaro em alguns homens? E chilreio sim, talvez ingloriamente, mas é nesse chilrear que habita a esperança de um outro sol, a queimar outra primavera, em outros campos, povoados de outras vozes e atapetados de outras flores. Conspurcados estamos todos e a primavera tem nojo de nós. Mas ela espera...; e talvez regresse um dia, então com um pássaro em cada pétala, em cada flor, em cada semente. E o tédio, o tédio não nos elucida. Enfermos de indiferença, emprestamos almas mortas a corpos vivos que são já cadáveres. Para quê então transformar em tragédia o que já é drama? Onde te levaria isso, esse gesto desesperado, senão aonde nem já o desespero é possível? Valha-nos, ao menos, sermos receptivos ao desespero, pois ele às vezes ressuscita-nos.
Não sei se gostarás disto, desta retórica confusa e amarga, se a compreenderás como eu a compreendo ao escrevê-la, pensando em tudo menos nisto que escrevo agora e aqui, ouvindo a tua voz colher as minhas flores azuis no silêncio desta madrugada húmida e fria, enquanto lado a lado caminhamos, juntos e sós, perto e já longe, olhando o mistério multicolorido dos nossos olhos, onde despontam já os primeiros raios de sol de um novo dia que nunca chega, mas que acreditamos porque há que acreditar em qualquer coisa, mesmo que seja tudo utopia.
Mas tenho um pássaro, dentro da minha mão. Comi-lhe as patitas e de vez em quando saltito; ébrio de nada, saltito à volta de não sei de quê, como quem espera algo de tão indefinido como..., como a cor dos teus olhos, que não tendo cor alguma, têm todas as cores do mundo (equilibro-me no arco-íris dos teus olhos e caio no meio da vida como um bêbado no meio da rua). Eu espero, tu esperas. Mas nós, nós esperamos? Que sei eu mais do que o longínquo som das marés que sobram dos búzios que oiço através do teu silêncio?
Há uma praia, eu sei, que espera os que souberem entender esse búzio. E ficaremos ali, vestidos de algas, puros e simples como a madrugada, à espera do pássaro que eu digo que tenho dentro da minha mão...
Não tenho nada, bem o sabes! Mas pobres de nós, quando já nem pássaros pudermos ou soubermos inventar para preencher esta fome e esta sede de tudo! Por isso escrevo, por isso digo, por isso (te) grito:
«EU TENHO UM PÁSSARO, DENTRO DA MINHA MÃO!»
Saberás tu entender esta mensagem tão simples, e fazer dela a ânsia maior da tua vida? Se souberes, ouve, se souberes, cala-te e não digas nada (às vezes, é no calar que ficam as grandes respostas e as grandes verdades).


(Dezembro, 1971)


segunda-feira, outubro 27, 2003

OLHARES 

"THE NAKED MAJA/MAJA NUA"
(FRANCISCO JOSE DE GOYA, 1798-1805)

Óleo sobre tela, 97 x 100 cm
Madrid, Museo Del Prado

"THE NEXT DAY/O DIA SEGUINTE" (EDVARD MÜNCH, 1894-95)
Óleo sobre tela, 115 x 152 cm
Oslo, Nasjonalgalleriet

"SUMMER INTERIOR/INTERIOR NO VERÃO" (EDWARD HOPPER, 1909)
Óleo sobre tela, 61 x 73.7 cm
New York, Museum Of American Art

"WALLY IN ROTER BLUSE MIT ERHOBENEN KNIEN/
WALLY DE BLUSA VERMELHA COM OS JOELHOS LEVANTADOS"
(EGON SCHIELE, 1913)

Guache, aguarela e plumbagina, 31.8 x 48 cm
Colecção Particular

"LOVERS IN THE LILACS" (MARC CHAGALL, 1930)
Colecção Particular

quinta-feira, outubro 23, 2003

ESCUTA PERMANENTE 


HOW CAN I TELL YOU

How can I tell you that I love you, I love you
but I can't think of right words to say
I long to tell you that I'm always thinking of you
I'm always thinking of you, but my words
just blow away, just blow away
It always ends up to one thing, honey
and I can't think of right words to say

Wherever I am girl, I'm always walking with you
I'm always walking with you, but I look and you're not there
Whoever I'm with, I'm always, always talking to you
I'm always talking to you, and I'm sad that
you can't hear, sad that you can't hear
It always ends up to one thing, honey,
when I look and you're not there

I need to know you, need to feel my arms around you
feel my arms around you, like a sea around a shore
and -- each night and day I pray, in hope
that I might find you, in hope that I might
find you, because heart's can do no more
It always ends up to one thing honey,
still I kneel upon the floor


(Cat Stevens, Setembro 1971)


quarta-feira, outubro 22, 2003

DISCOTECA BÁSICA 

TEASER AND THE FIRECAT (CAT STEVENS, 1971)

(The Wind – Rubylove – If I Laugh – Changes IV – How Can I Tell You – Tuesday’s Dead – Morning Has Broken – Bitterblue – Moonshadow – Peace Train)

LP editado em Setembro de 1971 nos EUA (ISLAND 4313; #2)
LP editado em Setembro de 1971 na GB (ISLAND ILPS 9154; #3)
CD remasterizado editado em 29 de Maio de 2000

Cat Stevens gravou este magnífico album no auge da sua criatividade, o que equivale a dizer que é a sua obra fundamental (talvez apenas equiparável ao anterior, “Tea For The Tillerman”). Canções simples e directas, sem grandes ornamentos, continuam por isso mesmo a cativar mais de trinta anos depois. Com excepção de “Changes IV” e “Bitterblue” (sem dúvida as menos conseguidas e as que pior envelheceram), todos os restantes temas são clássicos absolutos, devendo obrigatoriamente figurar em qualquer colectânea do cantor. Simultâneamente com o disco, Stevens editou também na altura um livro e uma curta-metragem de animação, ambos com o mesmo título. Esta última pode ser encontrada no DVD que vem junto à última colectânea editada: "The Very Best Of"

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

HAROLD AND MAUDE / ENSINA-ME A VIVER (1971) [POSTER]

Estreia nos EUA: Dezembro de 1971

Realização: Hal Ashby
Argumento: Collin Higgins
Cinematografia: John Alonzo
Montagem: William A. Sawyer e Edward Warschilka
Música Original: Cat Stevens
Direcção Artística: Michael Haller
Guarda-Roupa: William Theiss

CAST:

Ruth Gordon ... Maude
Bud Cort ... Harold Chasen
Vivian Pickles ... Mrs. Chasen
Cyril Cusack ... Glaucus
Charles Tyner ... Uncle Victor
Ellen Geer ... Sunshine Dore'
Eric Christmas ... Priest
G. Wood ... Psychiatrist
Judy Engles ... Candy Gulf
Shari Summers ... Edith Phern
Tom Skerritt ... Motorcycle Officer
etc.

«Well if you want to sing out, sing out
and if you ant to be free, be free
there’s a million things to be, you know there are»

(Cat Stevens)

Um dos filmes-chave do início da década de 70 (ou será do fim da década de 60...?), esta comédia de humor negro acedeu por mérito próprio ao estatuto muito particular de objecto-culto. Percebe-se porquê. Hoje, tal como ontem, a rebelião continua a existir (felizmente...), e os alvos permanecem practicamente os mesmos: as forças policiais e militarizadas, a igreja e os seus derivados, ou ainda os estigmas de uma sociedade castrante, repleta de obrigações sociais e moralizantes. Ao fim e ao cabo, muito pouca coisa mudou nestas três décadas, motivo porque "Harold and Maude" se mantém tão actual. Não se trata apenas de uma história de amor entre uma octogenária e um jovem de 20 anos, como muito boa gente referiu na altura da estreia. É evidente que a relação está lá, não pode ser ignorada, mas o filme apenas a usa para outros voos, muito mais altos e diversificados.



Com um argumento brilhante da autoria de Collin Higgins, "Harold and Maude" inicia-se e acaba com encenações da morte. Mas se a primeira (e todas as outras ao longo do filme) apenas visa mostrá-la enquanto reflexo oposto de sinais vitais (como que um espelho no qual a mãe de Harold se possa contemplar de vez em quando) a última é a encenação definitiva, em que o espelho é quebrado e a liberdade enfim emerge, como consequência directa de uma morte já autêntica e não imitada - uma espécie de ritual, de morte libertadora.
Um dos factores que contribuiram decisivamente para o êxito do filme é a banda sonora, recheada de belissimas canções de Cat Stevens, então no auge da sua popularidade. De tal modo a música é descritiva que sempre que o filme nos regressa à memória as cenas-chave aparecem-nos quase sempre associadas àquelas canções.
Finalmente os actores, dando vida a personagens inesquecíveis, e brilhantemente dirigidos por Ashby. Ruth Gordon compõe uma das mais célebres e Bud Cort tem aqui a interpretação de toda uma carreira.

SOUNDTRACK:

As canções de Cat Stevens:

- "Where Do the Children Play?"
- "On the Road to Find Out"
- "Don't Be Shy"
- "Tea for the Tillerman"
- "If You Want to Sing Out, Sing Out"
- "I Think I See The Light"
- "I wish, I wish"
- "Miles from nowhere"
- "Trouble"



Citações Memoráveis:

Harold: What were you fighting for? Maude: Oh, Big Issues. Liberty. Rights. Justice. Kings died and kingdoms fell. You know, I don't regret the kingdoms--I see no sense in borders and nations and patriotism--but I do miss the kings.

Maude: A lot of people enjoy being dead. But they're not dead, really. They're just... backing away from life. Reach out. Take a chance. Get hurt, even! Play as well as you can. Go team! GO! Give me an L! Give me an I! Give me a V! Give me an E! L. I. V. E. LIVE! ...Otherwise, you got nothing to talk about in the locker room.

Harold: You sure have a way with people. Maude: Well, they're my species!

Maude: What kind of flower would you like to be? Harold: I don't know. One of these, maybe. Maude: Why do you say that? Harold: Because they're all alike. Maude: Oh, but they're NOT! Look. See, some are smaller; some are fatter; some grow to the left, some to the right; some even have lost some petals. All kinds of observable differences! You see, Harold, I feel that much of the world's sorrow comes from people who are *this*, yet allow themselves to be treated as *that*.

Harold: Maude, do you pray? Maude: Pray? No, I communicate.

Maude: Vice, virtue, it's best not to be too moral - you cheat yourself out of too much life. Aim above morality.

Maude: Harold, everyone has the right to make an ass out of themselves. You can't let the world judge you too much.

Maude: You know, at one time, I used to break into pet shops to liberate the canaries. But I decided that was an idea way before its time. Zoos are full, prisons are overflowing... oh my, how the world still dearly loves a cage.


NOTA: Até à presente data apenas foi editado o DVD na Região 1 (14,19 €, já com portes incluídos)

Sem Comentários... 




(in revista "FOCUS" nº 210)

terça-feira, outubro 21, 2003

HISTÓRIA EXEMPLAR 


Entrei.
- Tire o chapéu - disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se - determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? - investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.


(Mário-Henrique Leiria in “Contos do Gin-Tonic”, 1973)


DOIS FADOS DE SAUDADE 

Hoje o Rato está um tudo mais nostálgico do que habitualmente. E isso porque a noite passada esteve a ouvir dois fados que lhe trouxeram à memória a Lisboa do princípio dos anos 70, mais precisamente, o verão de 71, durante o qual descobriu, entre outras coisas, a noite alfacinha. E nessa noite da altura existiam duas casas de fados (ainda existem...) de passagem obrigatória: uma delas era a Lisboa à Noite, onde costumava cantar o saudoso Manuel de Almeida e, claro, o inevitável Faia, na altura ainda gerido pelo Carlos do Carmo. Que depois dos fadistas da casa terminarem a sessão oficial, brindava quase sempre a assistência com meia dúzia de extras. E foi lá que ouvi pela primeira vez estes dois fados, incluidos um ano antes num album agora reeditado pela primeira vez em cd.

Aqui ficam as letras:

A SAUDADE ACONTECEU
(Jorge Rosa/Tema popular)

Há pouco, quando ficaram
teus olhos presos nos meus
Quantos segredos contaram
quantas coisas revelaram
nessa confissão meu Deus
(no silêncio deste adeus)

Há pouco, quando teimosas
duas lágrimas rolaram
Trementes, silenciosas
deslizaram caprichosas
e nos teus lábios pararam
(e nosso beijo selaram)

Há pouco, quando partiste
todo o céu enegreceu
Ainda bem que tu não viste
formou-se uma nuvem triste
chorou o céu, chorei eu
(e a saudade aconteceu)



NÃO SE MORRE DE SAUDADE
(Júlio de Sousa/Alberto Costa)

Não se morre de saudade
de saudade eu não morri
Nem morro nesta ansiedade
de viver morrendo em ti

Não sou a flor que tu beijas
nem o Deus das tuas preces
Não serei o que desejas
mas sou mais do que mereces

No banco verde da esperança
estou sentado à tua espera
Continuo a ser criança
no meu jardim de quimera

Sou a pausa do teu recreio
sou o brinquedo quebrado
És o livro que não leio
porque está sempre fechado

Traz a bola e vem brincar
traz o barco e vem correr
Traz a corda e vem saltar
meu amor, pra eu te ver

DISCOTECA BÁSICA 

THE BOY NEXT DOOR (STACEY KENT, 2003)


(The Best Is Yet To Come – The Boy Next Door – The Trolley Song – Say It Isn’t So – Too Darn Hot – Makin’ Whoopee – What The World Needs Now Is Love – You’ve Got A Friend – I Got It Bad – Ooh-Shoo-Be-Doo-Bee – People Will Say We’re In Love – ‘Tis Autumn – All I Do Is Dream Of You – I Get Along Without You Very Well – You’re The Top - Bookends)


CD editado em 26 de Agosto de 2003
(CANDID CCD 79797; UPC: 0885797972 )

Gravado entre 18 e 22 de Fevereiro, o sexto e novíssimo album desta nova-iorquina radicada em Inglaterra respira classe e bom gosto por todas as faixas. Homenagem da cantora a alguns dos seus heróis musicais, os 16 temas escolhidos percorrem diversas áreas da canção popular norte-americana, desde os clássicos (Frank Sinatra, Tony Bennett, Nat ‘King’ Cole...) até aos mais jazzísticos (Dave Brubeck, Louis Armstrong, Duke Ellington...), não esquecendo alguns crooners (Perry Como, Dean Martin...) ou ainda o lado mais soft do rock (James Taylor, Burt Bacharach, Paul Simon). Produzido pelo saxofonista (e marido de Stacey) Jim Tomlinson, todo o album é uma delícia, do princípio ao fim (que frustração aquele "Bookends" final apenas durar um escasso minuto...; mas a canção é mesmo assim, curtinha), constituindo uma miscelânea perfeita para as tardes e noites outonais que se avizinham.
Vale a pena transcrever ainda a crítica de Humphrey Lyttelton, da BBC2: «I sat through "Boy Next Door" alone, at dead of night, with a silly great grin on my face, sometimes shouting with joy, sometimes applauding, sometimes vainly trying to swallow a lump in the throat. Everything about it -- the choice of songs, the musical interplay, the glorious voice -- leaves one searching for a more superlative word than 'greatest' !»

À semelhança de todos os outros discos de Stacey Kent, esta última pérola pode ser encomendada na Amazon.co.uk a um preço especial de lançamento (12,27 € + portes).

sexta-feira, outubro 17, 2003

ESCUTA PERMANENTE 


NE ME QUITTE PAS

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


(Jacques Brel, 1959)


quinta-feira, outubro 16, 2003

POEMA A UM AMOR DESENCONTRADO 

Não sei se te encontrei
ou se te perdi.
Não sei se te lembrei
ou se te esqueci.
Nem sequer sei o que sinto
ou o que senti.

Mas recupero em sonhos
as horas perdidas
em repetidos pensamentos.
Mas recupero em sonhos
as esperanças nascidas
no afluir dos momentos.
E nascem estrelas
numa noite em poesia,
que me dirigem
tremulamente o passo
numa estrada triste,
sabida de cor.
Nasce o sol em mais um dia
e todo este meu pequeno espaço
está vazio, mas está melhor.

E consigo sentir teu ouvido
de encontro ao meu peito
escutando meu coração.
Teus olhos em meus olhos
pedindo que torne real
toda esta ilusão.


(Luísa Leça Pereira)

PENSAMENTO DO DIA 


É quando nos esquecemos de nós mesmos que fazemos coisas que merecem ser recordadas


OLHARES 

"THE FISHERMAN AND THE SYREN/O PESCADOR E A SEREIA"
(LORD FREDERICK LEIGHTON, 1856-1858)

Óleo sobre tela, 66.3 x 48.7 cm

"THE BATH/O BANHO" (MARY CASSATT, 1890-1891)
Óleo sobre tela, 36.8 x 26.3 cm
Chicago, The Art Institute

"POOR PEOPLE ON THE SEASHORE (THE TRAGEDY)/
OS POBRES NA PRAIA (A TRAGÉDIA)" (PABLO PICASSO, 1903)

Óleo sobre madeira, 105.4 x 69 cm
Washington, National Gallery Of Art

"SITZENDE FRAU MIT GESPREIZTEN SCHENKELN/
MULHER SENTADA COM AS COXAS ABERTAS"
(GUSTAV KLIMT, 1916-1917)

Desenho a lápis, 57 x 37.5 cm
Colecção Particular

"GIRL WITH BLACK EYE/RAPARIGA COM OLHO NEGRO"
(NORMAN ROCKWELL, 1953)

Capa do "Saturday Evening Post", de 23 de Maio de 1953
Connecticut, Hartford, Wadsworth Atreneum

quarta-feira, outubro 15, 2003

IDA À CHINA 

Não resisto a transcrever uma piada que me chegou hoje ao mail:

Um sujeito casado volta de uma viagem de negócios na China, onde aproveitou para conhecer algumas garotas de programa.
Só que, quando volta a casa, descobre que o seu pénis está todo verde.
Esconde o facto da mulher do jeito que pode e vai consultar um médico.
O médico olha o apêndice esverdeado e diz:

- Aha! Você foi à China!
- É verdade.
- E conheceu umas garotas de programa!
- Sim!
- Infelizmente isso não tem cura. Vamos ter que cortar

O sujeito nem acredita no que ouve. Vai consultar outro médico, mas o diagnóstico é o mesmo. Muito deprimido, procura um urologista que também confirma o diagnóstico.
Como não encontra outra saída, decide confessar as suas escapadas á mulher que, depois de uma boa descompostura, o aconselha a ir ver um médico chinês.
O sujeito marca uma consulta com um médico chinês de renome.
Ao examiná-lo, o médico dá uma risadinha:

- Hehehehe! O senhor esteve na China recentemente...
- É verdade.
- E o senhor fez umas brincadeiras com as garotas...
- Sim!
- E claro, o senhor foi ver um médico português...
- Fui sim!
- E o médico português disse-lhe que teria de cortar...
- Infelizmente...
- Ora! Esse médico não sabe nada! Não precisa cortar.

O sujeito nem acredita! O Seu pesadelo parece ter chegado ao fim!

- Então existe um tratamento para isso?
- Não, mas não precisa cortar.
Cai sózinho! Eh eh eh...

A FUGA 

Sózinho, na cela, o condenado assentava ideias. Regressara, há momentos, da sala do tribunal onde um júri o condenara a prisão perpétua. Apesar de saber que toda a vida fora um tipo de sorte não esperava tanto.
Calculava que o sentenciariam à morte, na cadeira eléctrica. Mas safara-se.
E agora voltava-lhe o desejo de liberdade. Na enxerga, mãos atrás da nuca, reflectia. A não ser que algumas amnistias lhe viessem alterar o tempo de cadeia, tinha de se preparar para ficar ali o resto da vida. O que, naturalmente, não lhe agradava.
Lembrou-se dos filmes que vira, do modo como os prisioneiros passavam as horas encerrados entre quatro paredes, da forma como muitos deles fugiam da prisão.
Um mês depois caiu gravemente doente. Levado de urgência para o hospital, extraíram-lhe o baço. Mas não ficara bom e, quinze dias mais tarde, estava de novo a ser submetido a outra operação. Desta feita, tiraram-lhe um rim. Depois, uma gangrena idiota invadiu-lhe a perna direita e os médicos não tiveram outra solução que não fosse amputarem-na. Mas cada vez se sentia pior. Praticamente já nem deixava o hospital. E foi sem surpresa que os médicos se viram obrigados a, sucessivamente, lhe extraírem o pulmão esquerdo, o pâncreas, o olho direito e a amputarem-lhe a outra perna, os dois braços e as duas orelhas.
Finalmente, o director da prisão entendeu que, perante o pouco corpo que ele tinha agora, o melhor seria soltar-lhe os restos.
Estivera preso apenas três anos. Mercê da sua sorte conseguira, pedaço a pedaço, realizar a mais sensacional das fugas.

(in "Pão com Manteiga", 1980)

ESCUTA PERMANENTE 


QUAND ON N'A QUE L'AMOUR


Quand on n'a que l'amour
A s'offrir en partage
Au jour du grand voyage
Qu'est notre grand amour
Quand on n'a que l'amour
Mon amour toi et moi
Pour qu'éclatent de joie
Chaque heure et chaque jour
Quand on n'a que l'amour
Pour vivres nos promesses
Sans nulle autre richesse
Que d'y croire toujours
Quand on n'a que l'amour
Pour meubler de merveilles
Et couvrir de soleil
La laideur des faubourgs
Quand on n'a que l'amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours

Quand on n'a que l'amour
Pour habiller matin
Pauvres et malandrins
De manteaux de velours
Quand on n'a que l'amour
A offrir en prière
Pour les maux de la terre
En simple troubadour
Quand on n'a que l'amour
A offrir à ceux-là
Dont l'unique combat
Est de chercher le jour
Quand on n'a que l'amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
A chaque carrefour
Quand on n'a que l'amour
Pour parler aux canons
Et rien qu'une chanson
Pour convaincre un tambour

Alors sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains
Amis le monde entier.


(Jacques Brel, 1956)

Comme quand on était beau 



«Rien nous appartient vraiment. Tout nous est prêté
Jacques Brel



Não é verdade, Jacques. Pelo menos no que diz respeito às tuas canções. Não foi um empréstimo, foi uma dádiva vitalícia que tu nos fizeste há mais de 50 anos. Elas continuam muito nossas e assim se manterão, porque afinal apenas vão apanhando comboios diferentes, em contínuo andamento, de saison en saison, para sempre...




Écoute, Jacques, écoute le temps s’immobilise...
Des tram’s partis de Gand voguent vers tes Marquises…
Enlisé, sous le vent, un marin d’Amsterdam
les regarde passer.
Au creux de leur sillage mille chemins de pluie
T’apportent des prénoms familiers de Paris.
Un accordéon rance a conservé le drame
D’une valse éclatée.

Écoute, Jacques, écoute un bruit de cathédrale
bouge inlassablement au ventre des étoiles.
Un morceau de Belgique ému par le vacarme
embarque pour chez toi.
D’invisibles rameurs surgis d’un soir de Bruges
brisent l’eau des canaux qui retombe en déluge.
J’ai fait comm’ tu m’as dit un géant brise-larmes,
il est prêt au combat.

Écoute, Jacques, écoute... j’ai muré la maison
baîllonné les fenêtres et rangé les chansons.
Seul’ ta guitare encore résonne à demi-mot
de Flamands espagnols.
J’ai amarré l’Askoy au bout d’un terrain vague
à deux pas du vent d’est mais à l’abri des vagues.
Alentour du voilier des rochers en troupeaux
dressent des nécropoles.

Écoute, Jacques, écoutent la pendule arrêtée
en mal de sortilèges abrège le passé.
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche
ne fait plus rien chanter.
Si tu levais la tête, tu pourrais voir venir
la dérive de l’Escaut partie sans prévenir,
des lambeaux d’Italie qui arpentent la Manche
et le Nord est en mai.

Écoute, Jacques, écoute, il faut que je te dise
Zangra s’en est allé, il s’est fait la valise.
Cela va faire je crois bientôt plus de deux ans
qu’on ne sait rien de lui.
Cependant certains soirs on dit qu’à Bélonzio
se devine immobile derrière les créneaux
comme une ombre attristée qui écoute le temps
accoudée à la nuit.

Écoute, Jacques, écoute, il y a des rumeurs d’avion
revenues pour un soir de l’arrière-saison.
Un Boeing affrété par Saint-Exupéry
passera au matin.
À son bord il y a des filles et du vin de Moselle
des pinceaux, une toile, des cristaux d’aquarelle
un soleil de Provence trouvé à Tahiti
à remettre à Gaugin.

Jacques... tu m’as bien compris?


(Jean-Claude Pascal, Gilbert Sinoué et François Rauber)





sábado, outubro 11, 2003

SILÊNCIO!... 


No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...


(Florbela Espanca in "Reliquiae", 1931)


PIN UPS 


"PUPPY COMPANION"
(William Medcalf, 1955)


"OLD CAR"
(David Perry, 2001)


"DANCE PARTY"
(Harry Ekman, 1950)


"MOTEL FETISH"
(Chas Ray Krider)


"THE RIGHT TOUCH"
(Gil Elvgren, 1958)


DISCOTECA BÁSICA 

PIANO BAR (PATRICIA KAAS, 2002)


(My Man – If You Go Away (Ne Me Quitte Pas) – What Now My Love (Et Maintenant) – Un Homme Et Une Femme – The Summer Knows (Summer Of 42) – I Wish You Love (Que Reste-t-il De Nos Amours?) – Yesterday When I Was Young – Les Moulins De Mon Coeur (The Windmills Of Your Mind) – Autumn Leaves – Where Do I Begin (Love Story) – Syracuse – La Mer – And Now… Ladies And Gentlemen – If You Go Away (remix))


CD Digipak editado em 16 de Abril de 2002 (Columbia 506169-7; UPC: 099750616970 )


Album inspirado pelo filme de Claude Lelouch “And Now... Ladies And Gentlemen”, onde Patricia Kaas se estreia no cinema contracenando com Jeremy Irons. Trata-se também de uma homenagem, segundo a intérprete: « j'ai voulu rendre hommage et redonner ses lettres de noblesse au terme de “piano bar” à travers lequel la chanson française a été véhiculée dans tellement d'endroits dans le monde ».
Aposta claramente ganha num album magnífico a todos os níveis, desde o ambiente muito cool e jazzístico, ao som cheio e subtil, passando obviamente pela voz fabulosa de Patricia Kaas, que nos faz vibrar em cada um destes bocados míticos da canção.

ESCUTA PERMANENTE 

»
EU SEI QUE VOU TE AMAR
(Vinicius De Moraes/António Carlos Jobim)

Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar
em cada despedida eu vou te amar
desesperadamente eu sei que vou te amar.
E cada verso meu
será p'ra te dizer
que eu sei que vou te amar
por toda a minha vida.

Eu sei que vou chorar
a cada ausência tua vou chorar
mas cada volta tua há-de apagar
o que esta ausência tua me causou.
Eu sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver
à espera de viver ao lado teu
por toda a minha vida.



(Nota de rodapé: As interpretações desta canção são tantas e a maior parte delas tão boas, que não me atrevo a indicar qualquer uma em especial. Em alternativa sugiro uma pesquisa no site de música brasileira "Clique"; depois é só escolher...)

sexta-feira, outubro 10, 2003

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

AI NO KORIDA / O IMPÉRIO DOS SENTIDOS (1976) [POSTER]


Estreia em França: 1976, Maio 15
Estreia em Portugal: 1976, Setembro
Estreia nos EUA: 1996, Julho 12

Produção: Anatole Dauman
Argumento: Nagisa Oshima
Cinematografia: Hideo Itoh
Música Original: Minoru Miki
Montagem: Patrick Sauvion e Keiichi Uraoka
Direcção Artística e Guarda-Roupa: Jusho Toda

A década de 70 assistiu, nos países mais desenvolvidos, a uma libertação dos costumes, que originou uma forte atenuação da censura. O cinema erótico pôde então expandir-se desde a forma mais soft até ao chamado "hard-core", ou seja, pornográfico. Oshima nada tem de pornógrafo: os seus filmes atestam pelo contrário uma personalidade exigente, inimiga, é certo, de qualquer forma de conformismo, mas que não transige nem os seus ideais estéticos, nem políticos.
Em «O Império dos Sentidos» ,Oshima aborda o erotismo numa perspectiva quase mística, à maneira de Georges Bataille ou de Sade (a quem o nome da heroína - SADA - faz curiosamente referência). Causará surpresa saber que o argumento (da autoria do próprio Oshima) segue de muito perto um episódio autêntico, que abalou os anais judiciários nipónicos antes da guerra (e fez da jovem castradora uma pioneira dos movimentos feministas!). Tal como se apresenta, o filme torna-se um hino ao amor sem limites, mas ritualizado ao máximo, parecendo-se muito menos com uma crónica galante do que com uma espécie de holocausto.
"Amor louco" ou pecado, transgressão ou vício, consoante a óptica. A de Oshima é da austeridade e da pureza. Por isso os seus amantes aprofundam o amor até à exaustão, isto é, até à morte. Amantes de uma longa cópula raramente interrompida, desafio a uma erecção permanente, corrida para orgasmos sucessivos. SADA e KICHIZO, uma mulher e um homem que se vão consumindo mutuamente.
Mas acima de tudo é uma mulher que conduz toda a acção, que ousa possuir mais do que ser possuída, numa transgressão evidente. O homem passa à situação de participante, cobaia entregue às mãos da sua amante, colaborando com um pénis que a tudo resiste até se perder na ligação ao corpo para pertencer totalmente à mulher.
Entretanto, um elemento não menos participante vai atravessando as situações, vai corroendo os corpos: a morte. THANATOS nunca sai de cena, mesmo quando EROS parece dominar. É sempre a morte que reina. Um velho mendigo, uma velha geisha "consumida" em violência edipiana; uma faca; um nastro por fim, instrumento de orgasmo total e último. É então que, gasto o percurso numa viagem em busca do absoluto, parece nada mais restar do que a satisfação última de um amor sublime: a morte num suicídio-entrega-a-dois. Justamente o que os dois amantes recusam. A mulher sobreviverá ao acto final, após castração e apropriação dos órgãos genitais do seu amante.
Há imagens que marcam um filme, sem que o definam ou forneçam uma chave para o seu possível mistério. Assim é o caso, o desta castração derradeira. Dir-se-ia que todo o filme se funde, fugazmente, nesta conclusão e não surpreenderá se virmos na sua trajectória assim consumada um mecanismo simbólico que lhe confere uma clara dimensão erótica, ao nível da própria escrita. O que é admirável é que esta castração (castrar=perder) coincide com a mais louca libertação.
"O Império dos Sentidos" é um filme-acto-de-amor em busca dos valores absolutos que se esgotam no homem. É uma viagem ao âmago dos corpos, percorrendo com prazer o prazer do sexo, num sublime exercício de amar. Feito em grandes planos, quase todos fixos e longos, pintado a uma côr onde o vermelho de pungente erotismo rasga o écran. Com cenários e enquadramentos que, para além dos espaços e das figuras, definem a própria progressão dramática.
Quando SADA e KICHIZO um ao outro se assimilam, ambos trocam de quimonos. SADA leva consigo o quimono de KICHIZO, que funcionará como "fétiche" durante uma viagem de comboio. Outras vezes, é ainda o quimono que revela as personagens, quando o branco do exterior é trocado pelo vermelho do interior dos forros. Cores e formas, subjugando o espectador, arrastando-o para uma viagem de amor e loucura. Aposta última na sensibilidade de cada um. No delírio de um orgasmo que se busca no infinito. Num hino memorável à mulher e à sua força libertadora.
O grande sucesso do filme (crítica e público) levou Oshima a dar-lhe uma continuação livre, em que o fantástico tomou o lugar do erotismo: «O Império da Paixão» (1978).

Curiosidades:

Após a estreia na Alemanha, o filme foi confiscado e acusado de pornografia. Contudo, 18 meses mais tarde um tribunal federal permitiu a sua exibição sem quaisquer cortes.

A cena onde Sada puxa o pénis de uma criança como punição a um mau comportamento foi opticamente re-enquadrada em Inglaterra, de modo a não se ver os órgãos genitais. Este procedimento manteve-se na edição em DVD do filme (Região 2).

quinta-feira, outubro 09, 2003

ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO 


«O ódio também é gente. Não são apenas o amor, a paixão e a fraternidade que nos sustentam. Os ódios também são animadores. Dão vinagre à salada da vida. Sem eles, o mundo seria demasiado oleoso e enjoativo.
Os melhores ódios de todos são os ódios de estimação. Os ódios de estimação são aqueles que adoramos ter. Ao contrário dos ódios naturais, cujas origens e causas são facilmente atribuídas e justificadas, os ódios de estimação são aversões fortes que carecem absolutamente de razão.»


(Miguel Esteves Cardoso in “A Causa das Coisas”, Dezembro 1986)


Aqui o Rato também tem alguns. Ódios de estimação, quero eu dizer. Mas são muito meus, guardo-os com todo o cuidado, pois são-me preciosos para o meu equilíbrio psicológico. Sem eles, aonde poderia descarregar todo o stress e mau humor do dia-a-dia?
Existem no entanto grupos genéricos de ódios de estimação em que o objecto da nossa irritação já não é circunscrito a esta ou aquela pessoa em particular mas, por outro lado, é representativo de uma classe inteira, um grupo social ou profissional. Nestes ódios de estimação mais ou menos subjectivos já poderá existir alguma razão para que os tenhamos adoptado. Durante toda a minha vida sempre tive guardados bem dentro de mim três destes ódios. São os meus 3 Pês mais queridos: os Políticos, os Padres e os Polícias. Julgo que serão ódios muito vulgares, até por causa das razões que lhes estão subjacentes: a vigarice e o compadrio dos primeiros, a hipocrisia e o servilismo dos segundos e a arrogância e a prepotência dos terceiros. Excepções haverá muitas, como em todas as regras, mas eu prefiro acreditar na igualdade de todos os membros destas seitas, até para os poder odiar à vontade, sem qualquer constrangimento ou arrependimento.
No entanto, e nestes últimos anos, tenho sentido cada vez mais a tentação de adicionar mais um ódiozito à minha colecção – o grupo cada vez mais irritante dos jornalistas deste país. Eles aparecem às dezenas todos os dias, línguas viperinas e microfone em punho, prontos a agredir quem lhes ouse fazer frente, deleitando-se nas misérias e desgraças alheias. Aproveitam-se de tudo, desde os fogos à pedofilia, quais abutres em busca permanente de carne fresca para satisfação dos egos e crucificação em haste pública . E tudo em nome da "verdade" e do "dever" da informação!
Só tenho um pequeno problema, a letra não é o meu querido P. Gostava tanto de formar um quarteto..! Mas talvez consiga atingir o meu objectivo se contar apenas com os Periodistas. Ficam muitos de fora, mas paciência...


SANGUÍNEO 


HOJE...
Hoje a saudade da
tua presença
entra-me no corpo
ferido
insinua-se lentamente
e corta fundo
e mais fundo.

E vou sangrando...

AMANHÃ...
Amanhã a anulação
da tua ausência
percorrerá também o
meu corpo
mas então de rompante
e em louca correria.

E todo o sangue derramado
regressará às minhas veias
cansadas
e de novo se porá a jorrar
intensamente.


(1994, Abril 27)


quarta-feira, outubro 08, 2003

BLOW UP 


"O SONÂMBULO"
(Ralph Gibson, 1968)


"CRIANÇA"

"CHE GUEVARA"
(René Burri, 1963)


"MEMÓRIAS"
(Jorge Flora)


"DIA V"
(Alfred Eisenstaedt, 1945)


CITAÇÃO 

...
«Os amantes ciumentos são mais respeitáveis e menos ridículos que os maridos ciumentos. E estão garantidos pelo prestígio da literatura. Os amantes traídos são trágicos, nunca são cómicos.»

(Graham Greene in "The End of the Affair / O Fim da Aventura", 1951)

SOB O CHUVEIRO AMAR 



Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

(Carlos Drummond de Andrade in "O Amor Natural", 2002)

Pensamento do Dia 

»
Não devemos dar demasiada atenção ao que os críticos dizem.
Nunca foi erguida uma estátua em honra de um crítico.

DVD PROFILER 


Uma dica para todos os que, à  semelhança aqui do Rato, têm uma certa fobia do coleccionismo. E então se também possuem tendências organizativas e algumas centenas de DVD's em casa, este programinha vem mesmo a calhar. Chama-se DVD Profiler e o download pode ser feito gratuitamente do site homónimo www.dvdprofiler.com, imediatamente após fazer-se o registo (gratuito também, se bem que obrigatório). Depois é só instalar o programa e... voilá! Acabaram-se as dores de cabeça na procura daquele filmezinho que logo hoje apetecia tanto ver.

Basicamente o programa funciona em articulação com uma gigantesca base de dados central, à qual se vai buscar todos os dados necessários, para armazenamento no próprio computador. O utilizador apenas tem de introduzir o UPC (Universal Product Code) - número que se encontra debaixo do código de barras de cada DVD. Uma vez importados os dados, as possibilidades de consulta e selecção são inúmeras. Depois existem diversas formas de personalizar a nossa colecção, quer visualmente (pode-se ir buscar dezenas de skins, as quais poder-se-ão adaptar ao gosto pessoal de cada um; ou introduzirem-se fotografias, já que as que vêm juntamente com os dados não têm lá grande qualidade - é um dos poucos óbices desta versão gratuita) quer em enriquecimento de dados (podemos introduzir a nossa crí­tica, apontamentos, o preço que o disco nos custou, etc.).

Finalmente, trata-se de um suporte cem por cento seguro, atendendo a que podemos fazer o upload da nossa colecção para o site (com partilha inclusivé com quem se queira), o que significa que, caso o nosso disco vá um dia destes à vida, haverá sempre a possibilidade de recuperarmos mais tarde toda a base de dados.


Cinéfilos e coleccionadores! Este programa é para vocês!


JACQUES BREL 


(1929/Abril 8 – 1978/Outubro 9)

Paris, Hospital de Bobigny, quarto 305, 3 horas da madrugada do dia 9 de Outubro de 1978: Jacques Brel, 49 anos, sucumbe de uma embolia pulmonar. O homem que fazia de cada actuação em palco um autêntico combate de boxe, não conseguira vencer este último round. Tinha levado 24 anos para deixar Bruxelas e depois, já em Paris, mais cinco para se tornar uma estrela do music-hall. Mais 10 anos e abandona o mundo da canção, depois de lhe ter consagrado cada ano mais dias do que os que existem no calendário. Uma comédia musical, dez filmes (dois com a sua assinatura)..., e chega 1973 em que rompe definitivamente com o mundo do espectáculo; mas continua a sua aventura pessoal, à procura da "inacessible étoile", um pouco por todo o mundo.
Vários dos cento e tais temas que escreveu foram traduzidos e gravados por cantores tão diferentes quanto Frank Sinatra e David Bowie. "Ne me quitte pas" (1964) é a canção emblemática, aquela que o faz conhecido do grande público, a par de tantas outras jóias raras da canção: "Les Vieux", "Le Plat Pays", "La Chanson des Vieux Amants", "La Valse A Mille Temps", "Le Moribond", "Quand On N'a Que l'Amour"...
Brel construiu a sua carreira na boa tradição de chansonnier (autor e cantor), a que adicionava arranjos para orquestra. Mas foi sobretudo o palco que o celebrizou. E os abençoados que tiveram o privilégio de o ver ao vivo e de o aplaudirem até ao delírio em cada espectáculo, nunca mais voltarão a testemunhar aquela entrega total, incondicional, de um homem que se transfigurava num possesso em palco: do primeiro ao último segundo ele não parava, as canções sucediam-se num ritmo frenético, alucinante, até à última. E só então se retirava. Sem direito a qualquer "encore". Nem mesmo nas últimas despedidas, como em 6 de Outubro de 1966, data do último show no Olympia de Paris: após 15 canções, 20 minutos de aplausos! Como sempre não houve "encore", mas Brel regressaria ao palco 7 vezes. Como então referiu, tinham sido 15 anos de amor…
No cinema destacou-se nos filmes "Les Risques du Métier/"Os Ossos do Ofício" (1967), "L'Aventure C'est L'Aventure"/Aventura é Aventura" (1972) e "L'Emmerdeur/O Chato" (1973).
"Brel" foi o último trabalho que gravou, durante o mês de Setembro de 1977, numa altura em que já se sabia condenado. Um ano depois, em 12 de Outubro, o seu corpo seria transportado de avião para as ilhas Marquesas, onde foi enterrado ao lado de Gaugin, no cemitério de Atuona.

NOTA: Agora que passa mais um aniversário da morte de Brel, é gratificante saber que os registos dos seus grandes momentos em palco conheceram finalmente a transcrição para o DVD: é uma caixa tripla, com uma duração de mais de 7 horas, e que é um autêntico tesouro. Pode-se encomendá-la, por 62.27 € (portes standard para Portugal já incluídos, o que significa que a encomenda é entregue em 3 ou 4 dias úteis) em www.alapage.com. Dá pelo nome de “Jacques Brel: Comme quand on était beau” . É aproveitar enquanto não esgota, até porque, até agora, ainda não apareceu nos escaparates portugueses. O que já saíu por cá foi a caixa dos bonbons (com todos os discos originais, acrescidos dos inéditos) e a compilação "Infinniment", onde também se incluíram as gravações extras de 1977. Mas atenção, que esta colectânea também saíu em SACD. E para os puristas é sem dúvida a melhor das novidades. Mas terão de a mandar vir de fora, pois infelizmente este novo formato audio continua a ser muito ignorado por estas bandas.

segunda-feira, outubro 06, 2003

ESCUTA PERMANENTE 


LE MORIBOND

Adieu l'Émile je t'aimais bien
Adieu l'Émile je t'aimais bien tu sais
On a chanté les mêmes vins
On a chanté les mêmes filles
On a chanté les mêmes chagrins
Adieu l'Émile je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs la paix dans l'âme
Car vu que tu es bon comme du pain blanc
Je sais que tu prendras soin de ma femme
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Je veux qu'on s'amuse comme des fous
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Quand c'est qu'on me mettra dans le trou

Adieu Curé je t'aimais bien
Adieu Curé je t'aimais bien tu sais
On n'était pas du même bord
On n'était pas du même chemin
Mais on cherchait le même port
Adieu Curé je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs la paix dans l'âme
Car vu que tu étais son confident
Je sais que tu prendras soin de ma femme
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Je veux qu'on s'amuse comme des fous
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Quand c'est qu'on me mettra dans le trou

Adieu l'Antoine je t'aimais pas bien
Adieu l'Antoine je t'aimais pas bien tu sais
J'en crève de crever aujourd'hui
Alors que toi tu es bien vivant
Et même plus solide que l'ennui
Adieu l'Antoine je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs la paix dans l'âme
Car vu que tu étais son amant
Je sais que tu prendras soin de ma femme
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Je veux qu'on s'amuse comme des fous
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Quand c'est qu'on me mettra dans le trou

Adieu ma femme je t'aimais bien
Adieu ma femme je t'aimais bien tu sais
Mais je prends le train pour le Bon Dieu
Je prends le train qui est avant le tien
Mais on prend tous le train qu'on peut
Adieu ma femme je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs les yeux fermés ma femme
Car vu que je les ai fermés souvent
Je sais que tu prendras soin de mon âme
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Je veux qu'on s'amuse comme des fous
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Quand c'est qu'on me mettra dans le trou


(Jacques Brel, 1961)


DISCOTECA BÁSICA 

JACQUES BREL (JACQUES BREL, 1972)


(Ne me quitte pas – Marieke – On n’oublie rien – Les Flamandes – Les prénoms de Paris – Quand on n’a que l’amour – Les biches – Le prochain amour – Le moribond – La valse a mille temps – Je ne sais pas)

LP editado em Setembro de 1972 em França (Barclay 80.470)

Album gravado entre 12 e 27 de Junho de 1972 com novas versões de temas antigos que Brel tinha composto enquanto se encontrava ligado à editora Philips. Novas orquestrações e interpretações mais maduras, apesar de na altura o director musical François Raubert não estar muito convencido da necessidade daquele novo disco: “Quand un enfant est né, il est né; on ne le remet pas au monde X années après”.
De qualquer modo, e mesmo que não tivesse outras qualidades (e obviamente que tem muitas, pois Brel é sempre Brel), foi o album que deu a conhecer o cantor a uma nova geração, que até ali apenas conhecia os intérpretes da pop francesa dos anos 60. Era a época dos “Salut les Copains”: Adamo, Christophe, Françoise Hardy, Johnny Halliday, Sylvie Vartan, Sheila, Richard Anthony e tantos outros. Pessoalmente ainda me lembro do embate que senti na altura quando ouvi este senhor pela primeira vez. Tinha 20 anos e o mundo das canções nunca mais seria o mesmo. A partir de Brel foi a descoberta de um punhado de poetas e intérpretes da canção francesa que até ali me tinham passado ao lado: Brassens, Férré, Montand, Piaf, Gréco, Moustaki...

BLOW UP 

"GLAUCIA"

"RUA ESCURA"
(António Monteiro)


BANHO DE DOR"
(Ângela Berlinde)


"MOINHOS AZUIS"
(Fernando Subtil)


"ACIDENTE"
(Carlos Machado)

domingo, outubro 05, 2003

ESCUTA PERMANENTE 

IT WAS ALMOST LIKE A SONG
(Hal David/Archie Jordan)

Once in every life
Someone comes along
And you came to me
It was almost like a song

You were in my arms
Right where you belong
And we were so in love
It was almost like a song

January through December
We had such a perfect year
Then the flame became a dying ember
All at once you weren't here

Now my broken heart
Cries for you each night
And it's almost like a song
But it's much too sad to write


(Johnny Hartman in "Once in Every Life", Agosto 1980)

Sociedade Recreativa 




(Cartoon de Luís Afonso in revista "Público" 2003, Outubro 5)

QUANDO MORRER 

»
Quando morrer
quero essas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais em mim sua frescura,
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas
enquanto eu, dormindo, te espero;
quero que os teus ouvidos fiquem ouvindo o vento,
que cheirem o aroma do mar que amamos ambos
e fiquem pisando a areia que pisamos.

Quero que tudo o que amo fique vivo,
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas;
por isso fica tu florescendo, florida,
para que alcances tudo o que este amor te ordena,
para que esta sombra corra o teu cabelo,
para que assim conheçam a razão do meu canto.


(Pablo Neruda in "Cem Sonetos de Amor", 1959)

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

"THE BRIDGES OF MADISON COUNTY/AS PONTES DE MADISON COUNTY" (1995) " [POSTER]

Estreia nos EUA: 1995, Junho 2
Estreia em Portugal: 1995, Setembro 29
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1 Nomeação para o Oscar: Actriz Principal (Meryl Streep)
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Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Richard Lagravenese, segundo a novela de Robert James Waller
Cinematografia: Jack N. Green
Música Original: Lennie Niehaus
Montagem: Joel Cox
Direcção Artística: Bill Arnold
Cenários: Jay Hart
Guarda-Roupa: Colleen Kelsall

CAST:

Clint Eastwood .... Robert Kincaid
Meryl Streep .... Francesca Johnson
Annie Corley .... Caroline
Victor Slezak .... Michael Johnson
Jim Haynie .... Richard Johnson
Sarah Kathryn Schmitt .... Young Carolyn
Christopher Kroon .... Young Michael
Phyllis Lyons .... Betty
Debra Monk .... Madge
Richard Lage .... Lawyer
Michelle Benes .... Lucy Redfield
etc.

"As Pontes de Madison County" é a história de Robert Kincaid, fotógrafo famoso, e de Francesca Johnson, mulher de um agricultor do Iowa. Kincaid, de 52 anos, é fotógrafo da National Geographic - um estranho e quase místico viajante dos desertos asiáticos, dos rios longínquos, das cidades antigas, um homem que se sente em desarmonia com o seu tempo. Francesca, de 45 anos, noiva italiana do pós-guerra, vive nas colinas do Iowa com as memórias ainda vivas dos seus sonhos de juventude. Qualquer deles tem uma vida estável, e no entanto, quando Robert Kincaid atravessa o calor e o pó de um Verão do Michigan e chega à quinta dela em busca de informações, essa estabilidade desaba e as suas vidas entrelaçam-se numa experiência de invulgar e estonteante beleza que os marcará para sempre.

Baseado no best-seller de 1993 de Robert James Waller, “As Pontes de Madison County” conseguem, nas mãos classicistas de Clint Eastwood, atingir um apaixonante grau de pureza e simplicidade. Como nos seus melhores filmes (e este é sem dúvida nenhuma um deles) Eastwood opta por uma direcção sóbria, feita de respirações, de compassos, veículos ideais para a propagação das emoções. Longe de querer ser pretensiosamente dramático, Eastwood soube ser sensível na abordagem que fez do magnífico argumento que tinha entre mãos. O resultado é um filme apaixonante em que questões tão vulgares como oportunidades, perdas ou sacrifícios são elevadas ao nível do sublime.

«Embora nunca tenhamos voltado a falar um com o outro, permanecemos tão intimamente ligados quanto é possível a duas pessoas estarem-no. Não consigo encontrar palavras para exprimir isto adequadamente. Ele exprimiu-o melhor quando me disse que tínhamos cessado de ser dois seres distintos e que nos tínhamos tornado num terceiro ser formado por nós dois. Nenhum de nós existia independentemente desse ser. E esse ser foi deixado à deriva.»


Citações Memoráveis:


Francesca: And in that moment, everything I knew to be true about myself up until then was gone. I was acting like another woman, yet I was more myself than ever before.

Robert Kincaid: This kind of certainty comes but once in a lifetime.

Francesa: I was just going to have some iced tea and split the atom.

Robert: If you want me to stop, tell me now.
Francesca: No one's asking you to.

Robert: The old dreams were good dreams; they didn't work out, but glad I had them.

Robert Kincaid: I dont want to need you, 'cause I can't have you.

Robert Kincaid: Don't kid yourself, Francesca: you are anything but a simple woman.

Caroline: Who knew that, in between bake sales, my mother was Anaïs Nin?


Algumas Curiosidades:

Quem pretendia realizar este filme em 1993 era Sydney Pollack, que contava com Robert Redford para o desempenho de Robert Kincaid. Nessa altura, as actrizes pensadas para o papel de Francesca eram, entre outras, Susan Sarandon, Jessica Lange, Barbara Hershey e Angelica Huston.

A ponte onde Francesca se encontra com Robert (Cedar Bridge) foi destruída durante um incêndio em 3 de Setembro de 2002.

A casa de campo usada nas filmagens encontrava-se abandonada há mais de 30 anos, tendo sido completamente restaurada durante a produção do filme.


Soundtrack:

"Doe Eyes (Love Theme From 'The Bridges of Madison County')"
Composed by Lennie Niehaus and Clint Eastwood
Conducted by Lennie Niehaus
Piano solo performed by Michael Lang

"(Put Another Nickel In) Musci! Music! Music!"
Written by Bernie Baum and Stephen Weiss
Performed by Ahmad Jamal

"Blue Gardenia"
Written by Bob Russell and Lester Lee
Performed by Dinah Washington

"Casta Diva from 'Norma'"
Written by Vincenzo Bellini
Performed by Maria Callas and the Orchestra & Chorus of Teatro
Alla Scala Milan
Conducted by Tullio Serafin

"Casta Diva from 'Norma'"

"Easy Living"
Written by Leo Robin and Ralph Rainger
Performed by Johnny Hartman

"Leader Of The Pack"
Written by George Morton, Jeff Barry and Ellie Greenwith
Performed by The Sahngri-Las

"I'll Close My Eyes"
Written by Buddy Kaye and Billy Reid
Performed by Dinah Washington

"Baby, I'm Yours"
Written by Van McCoy
Performed by Barbara Lewis

"Poinciana"
Written by Buddy Bernier adn Nat Simon
Performed by Ahmad Jamal

"Mon coeur s'ouvre à ta voix from 'Samson et Dalila'"
Written by Camille Saint-Saëns
Performed by Maria Callas and Orchestra National de la

"Mon coeur s'ouvre à ta voix from 'Samson et Dalila'"

"Softwinds"
Written by Fletcher Henderson and Fred Royal
Performed by Dinah Washington with Hal Mooney and His Orchestra

"It Was Almost Like A Song"
Written by Hal David and Archie Jordan
Performed by Johnny Hartman

"I See Your Face Before Me"
Written by Howard Dietz and Arthur Schwartz
Performed by Johnny Hartman

"For All We Know"
Written by Sam Lewis and J. Fred Coots
Performed by Johnny Hartman

"This Is Always"
Written by Harry Warren and Mack Gordon
Performed by Irene Kral with The Junior Mance Trio

"It's A Wonderful World"
Written by Johnny Watson, Harold Adamson and Jan Savitt
Performed by Irene Kral with The Junior Mance Trio




CAMPEÕES DO MUNDO! 

Finalmente! Após uma década de jejum Portugal é pela 15ª vez Campeão do Mundo de Hóquei em Patins. Tí­tulo arrancado a ferros à  forte equipa italiana, com um único golo de Paulo Alves quando faltavam escassos 3 minutos para o termo do prolongamento.
Dez anos sem o doce sabor da vitória! Realmente longe vão os tempos em que a máquina do hóquei lusitano triturava tudo e todos. E vêm-me à  memória alguns nomes de uma equipa-maravilha que no início da década de 60 ganhava tudo o que havia para ganhar (pela segunda e última vez na sua história, Portugal foi campeão mundial 4 vezes seguidas, entre 1956 e 1962): Moreira, Bouçós, Velasco, Vaz Guedes e o grande Fernando Adrião. Com excepção do Vaz Guedes, que era oriundo do Campo de Ourique, todos os outros vinham do Desportivo de Lourenço Marques; era um cinco-base 80% moçambicano! Em 1963 juntava-se-lhes um miúdo benfiquista que diziam fazer maravilhas com o stick. Chamava-se António Livramento.

Tinhas Mesmo de Partir 

»
Tinhas mesmo de partir,
levares a luz que trouxeste
ao meu quarto solitário.
Levas na tua alma o cheiro
das folhas caducas que plantei
e do pó dos meus caminhos
mais antigos, e agora insisto
que leves contigo todo o fogo
do nosso impossível amor;
afinal, sol que nunca chegou.

Amei-te, sabes bem, e recordarei
sempre a maresia do teu suor,
e soluçarei de angústia com tanto
sal na saliva ferida, tão longe
dos teus lábios. Amei-te,
sabes bem, duma maneira sufocante
e magoada, e senti a dor do pinho
quando ele arde na lareira.
E fui cinza cada momento que quis
beber do teu amor, e fui sombra
deitado ao teu lado, nas intermináveis
noites de dúvida, à espera que fosse
estancada a minha sede de ti.

(José Pastor)

ESCUTA PERMANENTE 

SUMMERTIME
(DuBose Heyward/George Gershwin)

Summertime, time, time
Child, the living's easy
Fish are jumping out
And the cotton, Lord
Cotton's high, Lord, so high.

Your daddy's rich
And your ma is so good-looking, baby
She's looking good now
Hush, baby, baby, baby, baby, baby
No, no, no, no, don't you cry
Don't you cry!

One of these mornings
You're gonna rise, rise up singing
You're gonna spread your wings
Child, and take, take to the sky
Lord, the sky.

But until that morning
Honey, n-n-nothing's going to harm you now
No no no...
Don't you cry.


(Janis Joplin with Big Brother & The Holding Company, Julho 1968)

DISCOTECA BÁSICA 

CHEAP THRILLS (BIG BROTHER & THE HOLDING COMPANY, 1968)


(Combination Of The Two – I Need A Man To Love – Summertime – Piece Of My Heart – Turtle Blues – Oh, Sweet Mary – Ball And Chain)

LP editado em Julho de 1968 nos EUA (Columbia KCS 9700; #1)
LP editado em Setembro de 1968 na GB (CBS 63392)
CD remasterizado editado em Agosto de 1999 (Columbia/Legacy 492863/2) – inclui os temas adicionais “Roadblock (studio outtake)”, “Flower In The Sun (studio outtake)”, “Catch Me Daddy (live)” e “Magic Of Love (live)”, todos eles nunca editados até então
SACD (stereo e multi-channel) editado em 2002 (Columbia/Legacy CS 65784) - inclui os mesmos temas adicionais do CD

www.dvdboxoffice.com (SACD - 19.2 €, incluindo portes)

Album gravado após a actuação de Janis e dos Big Brother no festival pop de Monterey, em Junho de 67. Vendeu mais de um milhão de cópias e fez de Janis a primeira superstar feminina do rock. Inclui apenas um tema gravado ao vivo no Winterland Ballroom de San Francisco (o clássico “Ball And Chain”), sendo as restantes gravações de estúdio (as palmas no fim de “Combination Of The Two” foram acrescentadas posteriormente). Problemas de censura reduziram o título do album para Cheap Thrills (o inicial pretendido pela banda seria “Sex, Dope and Cheap Thrills” – “Sexo, Droga e Emoções Vulgares”). O cartoonista underground Robert Crumb foi quem executou a célebre capa do disco, devido à sua amizade pessoal com Janis. Sómente a primeira edição teria uma capa dupla (gratefold) com uma fotografia dos Big Brother ao vivo no interior. A partir da segunda edição a capa passa a ser simples.


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