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terça-feira, setembro 30, 2003

Pensamento do Dia 

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As mulheres gostam dos homens silenciosos.
Pensam que as estão a ouvir.

ESCUTA PERMANENTE 

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YOU'VE MADE ME SO VERY HAPPY
(Berry Gordy Jr., Brenda Holloway, Patrice Holloway, F. Wilson)

I've lost at love before
got mad and closed the door
but you said try, just once more

I chose you for the one
now I'm havin' so much fun
you treated me so kind
I'm about to lose my mind

You made me so very happy
I'm so glad you
came into my life

The others were untrue
but when it came to lovin' you
I'd spend my whole life with you
'cause you came and you took control
you touched my very soul
you always showed me that
lovin' you is where it's at
You made me so very happy
I'm so glad you
came into my life

I love you so much it seems
You're even in my dreams
I can hear you
yeah I can hear you calling me
I'm so in love with you
all I ever want to do is
thank you baby
thank you baby

You made me so very happy
you made me so very happy baby
I'm so glad you came
into my life

Ev'ry day of my life
I wanna thank you
You made me so very happy
Oh, I wanna spend my life with you
thank you baby
thank you baby


(Blood, Sweat & Tears, Dezembro 1968)

DISCOTECA BÁSICA 

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BLOOD, SWEAT & TEARS (BLOOD, SWEAT & TEARS, 1968)


(Variations on a Theme by Erik Satie (1st and 2nd movements) adapted from “Trois Gymnopédies” – Smiling Phases – Sometimes in Winter – More and More – And When I Die – God Bless the Child – Spinning Wheel – You’ve Made Me So Very Happy – Blues, Part II – Variations On A Theme By Erik Satie (1st Movement) Adapted from “Trois Gymnopédies”)

LP editado em 11 de Dezembro de 1968 nos EUA (CBS 9720; #1)
LP editado em Abril de 1969 na GB (CBS 63504; #15)
SACD editado em 2000 (Columbia Legacy CS 63986) – inclui mais dois temas adicionais ao vivo: “More And More” e “Smiling Phases” (também em versão remasterizada do CD)

www.DVDBOXOFFICE.COM (SACD - 23.50 €)

Segundo album deste grupo nova-iorquino com 5 elementos dos oito da formação original e mais 4 novos músicos, entre os quais David Clayton-Thomas. Iniciando e finalizando-se ao som de Erik Satie, o album produziria três temas de grande sucesso comercial: “Spinning Wheel”, “And When I Die” e “You’ve Made Me So Very Happy”. Mas o alinhamento dos temas escolhidos (gravados entre 7 e 22 de Outubro de 1968) denotava todo ele um grande ecletismo, o que passaria a constituir a imagem de marca da banda. Após um sucesso tremendo durante todo o ano de 1969 (66 semanas no TOP40 norte-americano, sete das quais em nº 1), o album viria a ganhar, já em 1970, o Grammy para o melhor album do ano.

ENGANO 

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O ruído dos motores tornara-se ensurdecedor. Depois, de súbito, tudo ficou em silêncio.
Foi à janela e olhou.
Lá em baixo os carros tinham parado, exactamente em frente à mansão. Abriram-se portas e as fardas começaram a sair, algumas de bota alta, olhando para cima.
Recuou um pouco, para não ser visto lá de fora. Encostou o cano da Stein ao canto da janela e, aguentando com firmeza na anca, atirou a primeira rajada num movimento sabiamente circular. E continuou.
Enganara-se. Pela primeira vez.
Vinham apenas dizer-lhe que fora eleito Presidente.


(Mário-Henrique Leiria in “Contos do Gin-Tonic”, 1973)

segunda-feira, setembro 29, 2003

Transição 

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Importante não foi o dia que te conheci, mas o momento em que passaste a viver dentro de mim

COSMOCÓPULA 

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O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta.

dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.




(Natália Correia in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica)

As 20 HISTÓRIAS DA AVÓZINHA 

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O menino Zeca gostava muito de ouvir as histórias que a avózinha lhe contava.
Mas chegou um dia em que, quando a avó tinha começado a contar uma das suas histórias, o Zequinha interrompeu-a e disse:
«Esse conto não, avózinha, já ouvi, é o do Lobo Mau.»
A avózinha começou a contar outra história mas o Zequinha voltou a interromper:
«Essa também já conheço, avózinha, é a do macaco sem rabo.»
E a avózinha foi começando a contar outras histórias mas sempre o Zequinha ia dizendo:
«Essa não, já conheço, avózinha, conte outra.»
A avózinha, que era analfabeta e só tinha aprendido a contar pelos dedos, contou dez dedos das mãos e dez dedos dos pés e nessa altura viu que já tinha contado ao netinho todas as histórias que sabia.
Então a avózinha disse ao netinho:
«Olha, Zequinha, já não sei mais nenhuma história, pede ao teu pai que tas conte.»
Mas o pai do Zequinha não sabia nenhuma história porque era uma vítima da Talidomida que tinha nascido sem braços e sem pernas.
E as histórias do Zequinha ficaram por aqui.


(Pedro Oom in "Actuação Escrita", 1980)

OPINIÕES PRÓPRIAS 

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"A primeira opinião que nos acode ao espírito quando somos subitamente interrogados sobre qualquer coisa, não é geralmente a nossa mas apenas a opinião corrente, que pertence à nossa classe, à nossa situação, à nossa origem: as opiniões próprias raramente emergem à superfície".


(Friedrich Nietzsche in "Humano Demasiado Humano")

ELIA KAZAN (1909-2003) 



"I do not hate you at all. You are simply not of my kind. You had the choice, my dear fellow, between nobility and a career. You made your choice. Be happy with it, but leave me in peace." -- Mephisto, Klaus Mann

Estas palavras podiam referir-se à escolha básica que Elia Kazan fez na sua vida: uma aposta na carreira pessoal em detrimento da sua imagem como homem. A opção foi tomada em 10 de Abril de 1952, quando Kazan traiu todo o seu passado político denunciando como comunistas oito dos seus antigos companheiros, além de diversos funcionários do partido comunista, ao qual ele próprio tinha pertencido durante os anos 30. Esse testemunho, além de destruir as vidas e carreiras dos acusados, ajudou a consolidar a “lista negra” de Hollywood e a prolongar o efeito nefasto da Comissão de actividades anti norte-americanas. A sua carreira continuou assim normalmente, sem percalços, quer no cinema quer no teatro. Mas a sua atitude nunca foi esquecida . Por isso, quase cinquenta anos depois, quando a Academia resolveu atribuir-lhe um Oscar honorário durante a cerimónia de entrega dos oscares de 1999 (ocorrida a 21 de Março), grande parte da assistência recusou levantar-se e aplaudir o realizador. Devido a tal hostilidade por parte dos seus pares Kazan, constrangido, apenas conseguiu balbuciar algumas palavras de agradecimento antes de abandonar o palco. A sua carreira tinha recebido o reconhecimento que artisticamente merecia mas o preço pago fora alto demais...

Como contribuição para a história do Cinema irão permanecer alguns filmes-chave da cinematografia norte-americana: “A Streetcar Named Desire/Um Eléctrico Chamado Desejo” (1951), “On the Waterfront/Há Lodo no Cais” (1954), “East of Eden/A Leste do Paraíso” (1955), “Baby Doll/A Voz do Desejo” (1956), “Splendour in the Grass/Esplendor na Relva” (1961), “America, America” (1963), “The Arrangement/O Compromisso” (1969) ou ainda “The Last Tycoon/O Grande Magnate” (1976). Nomeado cinco vezes para o Oscar de melhor realizador viria a ganhar a ambicionada estatueta por duas vezes: em 1948 (por “Gentleman’s Agreement/A Luz é Para Todos”) e em 1955 (por “On the Waterfront/Há Lodo no Cais”).

Kazan foi um daqueles cineastas cujo itinerário espiritual se reflectiu profundamente na sua obra. E as contradições com que se debateu ao longo de toda a sua vida projectaram-se inequivocamente nos seus filmes. Excelente director de actores (foi essa uma das suas imagens de marca), fundou em 1947 o Actor’s Studio (em cuja direcção se manteve até 1962), juntamente com Lee Strasberg e Cherryl Crawford. Inspirado nos métodos de Konstantin Stanislavski para a formação de actores, por lá passaram quase todos os grandes nomes do cinema americano a partir dos anos 50.

Kazan era filho de emigrantes greco-arménicos, nascido em Constantinople em 1909. Tinha 4 anos quando a família pisou solo americano pela primeira vez.

domingo, setembro 28, 2003

ESCUTA PERMANENTE 

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L'AMITIÉ

Ca fleurit, comme une herbe sauvage
n’importe où, en prison, à l’école
tu la prends comme on prends la rougeole
tu la prends comme on prends un virage.

C’est plus fort que les liens de famille
et c’est moins compliqué que l’amour
et c’est là quand t’es rond comme une bille
et c’est là quand tu cries au secours.

C’est le seul carburant qu’on connaisse
qui augmente à mesure qu’on l’emploie
le vieillard y retrouve sa jeunesse
et les jeunes en ont fait une loi.

C’est la banque de toutes les tendresses
c’est une arme pour tous les combats
ça réchauffe et ça donne du courage
et ça n’a qu’un slogan : " on partage " !

Au clair de l’amitié
le ciel est plus beau
viens boire à l’amitié
mon ami pierrot.

L’amitié, c’est un autre langage
un regard et tu as tout compris
et c’est comme SOS dépannage
tu peux téléphoner jour et nuit.

L’amitié, c’est le faux témoignage
qui te sauve dans un tribunal
c’est le gars qui te tourne les pages
quand t’es seul dans ton lit d’hôpital.


(Herbert Pagani, 1975)

DISCOTECA BÁSICA 

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MEGALOPOLIS (HERBERT PAGANI, 1972)


(Prélude à Megalopolis – Discours Pdg des USA d’Europe – Jingles – Arche de Noé – Sérénade – Radiotaxi – La cuisine, le ménage et l’amour – Deux sous la douche – Soldats! – Flash drogue – Fils père, fille mère – Ni Marx ni Jésus – Vole la colombe – Les tapis roulants – Chez nous – Le P.A.P.E. – Confession d’un cadre supérieur etc… - Megapocalypse – Le printemps d’après la fin du monde)

LP duplo editado em 1972 em França (Pathé Marconi 2C 162 12354/12355)
LP duplo editado em 1972 em Portugal (Pathé Marconi 8E 16612354/55)
CD duplo digitalizado e remasterizado editado em 1998 (Magic Records, 4985752)

www.alapge.com (22,96 €)
www.hpagani.free.fr
www.megalopolis.it



Cette histoire commence dans vingt ans
Quand nos enfants aurons vingt ans
Et que l’Orient et l’Occident
Respireront le même oxyde
Sous un soleil Celluloid
Et que la vie sera splendide
Entre les océans d’acides
Et les Florides de ciment...



Assim começa Megalopolis, de Herbert Pagani, uma trági-comédia musical saída da imaginação delirante deste visionário poeta da canção francesa. Inspirado principalmente no livro “Il Médioevo Prossimo Venturo/Demain le Moyen Age”, de Roberto Vacca, este album emblemático do princípio dos anos 70, com uma duração normal de uma longa-metragem (cerca de 93 minutos) pode ser ouvido (visto) como um filme de ficção-científica em que a poesia, o amor ou a solidariedade vão tentando sobreviver num mundo deshumano e tecnológico em corrida desenfreada para a sua destruição. Tudo se passa na última década do século XX, em que os Estados Unidos da Europa são governados por um presidente director-geral chamado Maxime Van der Love (descrito como tendo as orelhas de De Gaulle, o nariz de Nixon, o sorriso de John Ford ou o olhar de Joana D’Arc...).

Primeira ópera ecológica, primeira e única obra de ficção-política em disco, Megalopolis reparte-se por dois níveis: a decomposição de um mundo minado pelo esgotamento das fontes de energia e a resistência de um grupo de rebeldes a esse universo apocalíptico e sem futuro. Pagani utiliza a experiência ganha como animador na rádio Monte-Carlo para entrecortar as partes musicais com fragmentos de ruídos da vida quotidiana de todos os dias, a par de diálogos ou tiradas publicitárias. O resultado é de uma tremenda eficácia, originando uma obra musical sem precedentes no mundo da canção.

O duplo album vendeu razoavelmente bem na altura do seu lançamento mas foi necessário esperar quatro anos para que atingisse um êxito estrondoso em França e noutros países europeus, nomeadamente Portugal. Tal facto ficou devido aos espectáculos no Bobino de Paris, em Abril de 1976, onde o cantor recriou ao vivo todo o universo de Megalopolis. Dois anos depois, num Coliseu de Lisboa em festa, Pagani (acabado de fazer 34 anos no dia anterior) era o convidado de honra de uma campanha do partido socialista. Veio com a sua poesia, as suas canções e trouxe também Megalopolis. Eu fui um dos felizardos dessa noite memorável. E pude comprovar, para a posteridade, como é que um único homem, sózinho em palco, conseguia transformar uma sala de espectáculos numa gigantesca bola de cristal onde a felicidade colectiva contaminava tudo e todos. Nunca, em toda a minha vida, assisti a um espectáculo parecido com aquele.

30 anos se passaram. Pagani já não está entre nós (morreu cedo, aos 44 anos, em 16 de Agosto de 1988) e o seu Apocalypse não se confirmou (pelo menos na data anunciada...). Mas os Estados Unidos da Europa estão aí e a deshumanização também. A sociedade de consumo floresce e as reservas de energia começam a esgotar-se...

Pensamento do Dia 

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Se te apaixonas por um sorriso não cometas o erro de casar com a rapariga inteira

SURPRESAS DA PESCA 

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Não tinha dado nada.
Preparava-me para voltar para casa, mas resolvi atirar a linha uma última vez.
Senti um esticão bem forte. Segurei firme e comecei a enrolar o carreto com cuidado, devagar. E não é que vejo vir um nazi no anzol! Um nazi bem bom, dos grandes! Fiquei admiradissimo, tinham-me dito que já não havia. Tratei de o tirar com o auxílio do camaroeiro e fui verificar imediatamente. Era mesmo. General e SS, calculem! Com boné, medalhas, suástica e tudo. Vá lá uma pessoa acreditar no que lhe dizem! Meti-o logo numa lata, enquanto estava fresco, e despachei-o para a Peixaria Nacional. Lá devem saber o que fazer com ele. A mim, francamente, não me serve para nada.


(Mário-Henrique Leiria in “Contos do Gin-Tonic”, 1973)

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

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LAWRENCE OF ARABIA/LAWRENCE DA ARÁBIA (1962) (POSTER)

Estreia na GB: 1962, Dezembro 10
Estreia nos EUA: 1962, Dezembro 21
Estreia em Portugal: 1963, Novembro 21
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Vencedor de 7 Oscars: Filme, Realização, Direcção Artística, Fotografia, Montagem, Som e Banda Sonora
Nomeado para mais 3 Oscars: Argumento-Adaptado, Actor Principal (Peter O'Toole) e Actor Secundário (Omar Sharif)
Vencedor de 4 Globos de Ouro: Filme dramático, Realização, Cinematografia e Actor Secundário (Omar Sharif)
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Produção: Sam Spiegel
Realização: David Lean
Argumento: Robert Bolt e Michael Wilson, segundo escritos de T.E. Lawrence
Cinematografia: Freddie Young
Montagem: Anne V. Coates
Música Original: Maurice Jarre
Direcção Artística: John Box e John Stoll
Cenários: Dario Simoni
Som: John Cox
Guarda-Roupa :Phyllis Dalton

CAST:

Peter O’Toole...T.E. Lawrence
Alec Guinness...Prince Feisal
Anthony Quinn...Auda Abu Tayi
Jack Hawkins...General Allenby
Omar Sharif...Sherif Ali Ibn El Kharish
Jose Ferrer...Turkish Bey
Anthony Quayle...Colonel Harry Brighton
Claude Rains...Mr. Dreyden
Arthur Kennedy...Jackson Bentley
Donald Wolfit...General Murray
I.S. Johar...Gasim
etc.
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Se há filmes aos quais se associa a impossibilidade de serem feitos de novo hoje em dia, Lawrence da Arábia é certamente um dos melhores exemplos. O próprio Steven Spielberg que, como se sabe, tem o céu como limite, reconhece que, mesmo com toda a moderna tecnologia, seriam precisos mais de 250 milhões de dólares para produzir algo semelhante. E de qualquer modo não valeria a pena pois nunca teria a grandeza do original, que ele mesmo considera o melhor filme jamais realizado.

Classificado em 5º lugar na tabela do American Film Institute dos melhores 100 filmes de sempre, este épico incomparável é fruto da persistência e teimosia de David Lean, inglês nascido em Surrey no dia 25 de Março de 1908 (viria a falecer em Londres, a 16 de Abril de 1991), e que começou por trabalhar na montagem de filmes, durante toda a década de trinta. Depois, e a partir de 1942, realizou 16 longas metragens, destacando-se "Brief Encounter / Breve Encontro" (1946), "Oliver Twist" (1948), "The Bridge on the River Kwai / A Ponte do Rio Kwai" (1957), "Doctor Zhivago / Doutor Jivago" (1965), "Ryan's Daughter / A Filha de Ryan" (1970) e "A Passage to India / Passagem Para a India" (1984). Mas Lawrence of Arabia, que dirigiu aos 54 anos, permanecerá sem dúvida como a sua coroa de glória.

Omar Sharif, um dos emblemáticos actores do filme, interroga-se ainda hoje como foi possível conseguir realizar-se tal empreendimento: «imagino-me no papel do produtor do filme e vir alguém dizer-me que queria investir uma data de dinheiro num projecto de cerca de quatro horas, sem estrelas, sem mulheres e nehuma história de amor, sem grande acção também e inteiramente passado no deserto, por entre árabes e camelos... Com certeza que levava uma corrida!». Mas felizmente tal não aconteceu com David Lean, por culpa talvez dos 7 Oscars que o seu último filme também recebera.

Lawrence da Arábia é um filme que, pelo menos uma vez, deveria ser visto no grande écran, numa sala escura. Só assim se poderá usufruir de toda a sua grandiosidade. Hoje considero-me um privilegiado por ter vivido esse momento único no início da década de 70, quando da reposição do filme em todo o mundo. Apesar de já então se encontrar amputado em cerca de meia hora. Mas mesmo assim, assistir ao vivo, no esplendor dos 70 mm de uma grande sala de cinema (hoje em dia uma impossibilidade estabelecida) foi sem dúvida uma excitante e inesquecível experiência.

É que Lawrence da Arábia não é apenas um filme biográfico ou de aventuras, muito embora contenha esses elementos. Acima de tudo, é um filme que usa o deserto como palco de emoções, cativando os espectadores a ponto destes se entregarem totalmente ao puro prazer sensorial de ver e sentir o impacto do vento ou do sol abrasador nas dunas, como se duma paixão amorosa se tratasse. Acrescente-se a memorável música de Maurice Jarre e temos essa paixão elevada aos píncaros do sublime e do êxtase. É esta a razão pela qual as pessoas não se lembram do filme por elementos narrativos; recordam antes uma série de momentos visuais, cuja magia perdura na memória do filme: o apagar de um fósforo a originar o nascer do sol no deserto; a aproximação de uma silhueta no horizonte, como se de uma miragem se tratasse; a travessia do deserto de Nefud; o espectacular ataque a Akaba; o descarrilamento do comboio; a entrada de Lawrence no bar dos oficiais..., e a sequência mais bela - o resgate de Gasim por Lawrence - aqui tudo se conjuga na perfeição. Oberve-se a importância capital da música: começa titubeante, indecisa, a ilustrar a dúvida de Farraj sobre a veracidade da silhueta que mal se distingue ao longe (será ou não uma miragem mais?). Depois, e à medida que a dúvida se transforma em certeza, a música vai crescendo também, até acompanhar o galope desenfreado das duas montadas e os gritos de alegria dos dois homens na iminência do reencontro. É por cenas destas, sem qualquer diálogo, puramente cinemática, que se reconhece a genialidade dos grandes artistas. E David Lean foi sem dúvida um dos maiores.

Uma referência final a Peter O'Toole, que tem aqui um início fulgurante de carreira, com um papel à medida de toda uma vida. Este Irlandês nascido em County Galway (a 2 de Agosto de 1932) mas educado em Leeds, Inglaterra, teve na década de 60 os seus anos de glória no cinema, depois de doze anos passados nos palcos de teatros, nos quais se iniciou com apenas 17 anos; frequentou a Royal Academy of Dramatic Arts, onde teve por colegas Alan Bates, Richard Harris ou Albert Finney. Filmes como como "Becket" (1964), "Lord Jim" (1965), "Night of the Generals / A Noite dos Generais"(1969), "The Lion in Winter / O Leão no Inverno" (1969), "Goodbye Mr. Chips / Adeus Mr. Chips" (1969) ou ainda "Man of La Mancha / O Homem da Mancha" (1972), ficarão para sempre associados às magníficas interpretações de O'Toole, que conseguia estar à vontade em qualquer tipo de papel. Nomeado 7 vezes para o Oscar, nunca conseguiu levar para a casa a almejada estatueta, apesar de ser considerado um dos melhores actores da sua geração. Nos Globos de Ouro a sorte sorriu-lhe mais: ganhou aquele prémio por três vezes (nos filmes "Becket", "The Lion in Winter" e "Goodbye Mr. Chips"), num total de oito nomeações. Na déada de 70 problemas de alcool quase que lhe arruinaram de vez a carreira e a própria vida. Conseguiu sobreviver, apesar dos múltiplos tratamentos a que foi submetido lhe terem acabado para sempre com a beleza da juventude, tão bem captada naqueles filmes.



CITAÇÕES MEMORÁVEIS:

[Asked by reporter if he knew Lawrence.]
Jackson Bently: "Yes, it was my privilege to know him and to make him known to the world. He was a poet, a scholar and a mighty warrior. [After reporter leaves.] He was also the most shameless exhibitionist since Barnum & Bailey"

Lawrence: "It's my manner, sir"
General: "Your manner?"
Lawrence: "Yes, it looks insubordinate, but it isn't really"

Bedouin Guide: [talking of Britain]" Is that a desert country?"
Lawrence: "No: a fat country, fat people"
Bedouin Guide: "You are not fat?"
Lawrence: "No, I am different"

[A silhouette on distance]
Lawrence: "Turks?"
Bedouin Guide: "Bedu"
[A man on camel is coming near]
Lawrence: "Who is he?"
[The bedouin Guide runs to take a pistol. The man on camel shoots him]
Sherif Ali: "He is dead"
Lawrence: "Yes. Why?"
Sherif Ali: "This is my well"
Lawrence: "I have drunk from it"
Sherif Ali: "You are welcome"
Lawrence: "He was my friend"
Sherif Ali: "That?"
Lawrence: "Yes. That"
Sherif Ali [he picks up the pistol]: "This pistol yours?"
Lawrence: "No. His"
Sherif Ali [he picks the glass from the well]: His?"
Lawrence: "Mine"
Sherif Ali: "Then I will use it. Your friend... was a hazimi of the Beni Salem"
Lawrence: "I know"
Sherif Ali: "I am Ali Ibn El Kharish"

Sherif Ali: "There is the railway. And that is the desert. From here until we reach the other side, no water but what we carry with us. For the camels, no water at all. If the camels die, we die. And in twenty days they will start to die"
Lawrence: "There's no time to waste, then, is there?"

Lawrence: "I killed two people. One was yesterday. He was just a boy and I led him into quicksand. The other was... well... before Aqaba. I had to execute him with my pistol and there was something about it that I didn't like"
Allenby: "That's to be expected"
Lawrence: "No, something else"
Allenby: "Well, then let it be a lesson"
Lawrence: "No... something else"
Allenby: "What then?"
Lawrence: "I enjoyed it"

Lawrence: "Do you think I'm just anyone? Do you?"

Jackson Bentley: "Never saw a man killed with a sword before"
Lawrence: [contemptuously] "Why don't you take a picture?"
Jackson Bentley: "Wish I had"

Mr. Dryden: "A man who tells lies, like me, merely hides the truth. But a man who tells half-lies has forgotten where he put it"

Algumas Curiosidades:

Quando o filme se estreou, em Dezembro de 62, apresentava uma metragem original de 222 minutos. Pouco tempo depois foram cortados cerca de 20 minutos. Em 1971, quando da primeira reposição, mais 15 minutos foram retirados, sendo esta a versão que foi sendo apresentada nas duas décadas seguintes. Apenas em 1989 se procedeu a uma restauração do filme, que ficou com uma metragem final de 216 minutos. Esta restauração foi levada a cabo por Robert A. Harris, com a colaboração de Martin Scorsese e Steven Spielberg, além do próprio David Lean. Para a gravação de novos diálogos (devido ao mau estado ou mesmo à inexistência dos mesmos em cenas adicionais descobertas) foram de novo chamados os actores principais.

David Lean pretendia o actor Albert Finney para o papel de Lawrence; mas Katharine Hepburn convenceu o produtor Sam Spiegel a contratar Peter O'Toole.

Apesar da sua longa duração, é um dos raros filmes onde não existe qualquer papel falado por uma mulher.

Enquanto rodava as cenas de sabotagem dos comboios, a equipa de filmagens encontrou destroços dos verdadeiros comboios que Lawrence fez explodir.

David Lean tem uma curta aparição como o motociclista que grita para Lawrence "Who are you?", do outro lado do canal do Suez.

sábado, setembro 27, 2003

DISCOTECA BÁSICA 

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LIVE AT BLUES ALLEY (EVA CASSIDY, 1996)




(Cheek To Cheek - Stormy Monday - Bridge Over Troubled Water - Fine And Mellow - People Get Ready - Blue Skies - Tall Trees In Georgia - Fields Of Gold - Autumn Leaves - Honeysuckle Rose - Take Me To The River - What A Wonderful World - Oh, Had I A Golden Thread) Gravado ao vivo em Washington D.C., em 2 de Janeiro de 1996

CD editado em Maio de 1996 (Blix Street, G2-10046)

WWW.amazon.uk (12.28 €+ portes)


A situação repete-se todos os dias por esse mundo fora: quem ouve pela primeira vez esta voz para tudo o que está a fazer e põe-se a escutar... «mas o que é "isto"?»
"Isto" é apenas uma das vozes mais sublimes que a indústria discográfica nos deu a conhecer nestes últimos anos. Depois do primeiro embate, o passo seguinte é obviamente querer ouvir mais... e mais... e mais...! Infelizmente existem limites, até porque Eva Cassidy já não está entre nós - morreu precocemente a 2 de Novembro de 1996, com apenas 33 anos, numa altura em que practicamente era uma ilustre desconhecida. Mas nestes sete anos já decorridos após o seu desaparecimento físico os admiradores não param de crescer. A ponto do seu último album (póstumo, como quase todos os outros) ter atingido o 1º lugar das tabelas inglesas. Mas para começar a aprendizagem nada melhor do que esta pequena pérola; é que está lá tudo (ou quase tudo...)

PEQUENO POEMA 

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Quando eu nasci
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias
nem o céu escureceu
nem estrelas houve a mais...
Sómente,
esquecida das dores,
a minha mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram
não enloqueceu ninguém...

Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.


(Sebastião da Gama)

PIN UPS 

"PRECALÇO NO PARCÓMETRO"
(Art Frahm)

"O FÉTICHE DAS MÃOS"
(Serge Jacques, 1960)

"BEBENDO PELO COQUINHO"
(Archie Dickens)

"GLAMOUR NO W.C."
(A. Paulin)

"LENDO O CORREIO NO CONVÉS"
(Haddon Sundblom, 1958)

ZONA VIP 

...
«Sou neurótico, mas sou bonzinho. Tenho hábitos neuróticos, não gosto de entrar em elevadores, não passo por túneis e só gosto de chuveiros que tenham ralo no cantinho, nunca no meio» WOODY ALLEN

«Acaba-se sempre por dar o beijo de boa-noite à pessoa errada» ANDY WARHOL

«Quando dizem que tu és a queca do século, é óbvio que todas as mulheres ficam desapontadas após a primeira noite contigo» MICK JAGGER

«A minha mãe costuma perguntar-me quando é que eu me vou casar. Eu respondo sempre: quando encontrar um homem que tiver mais tomates do que eu» SALMA HAYECK

«Quando sou boa sou boa, quando sou má sou melhor ainda» MAE WEST

ESCUTA PERMANENTE 

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AS TEARS GO BY
(Jagger/Richards)

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Smiling faces I can see
But not for me
I sit and watch
As tears go by

My riches can't buy everything
I want to hear the children sing
All I hear is the sound
Of rain falling on the ground
I sit and watch
As tears go by

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Doin' things I used to do
They think are new
I sit and watch
As tears go by


(The Rolling Stones, Dezembro 1965)

STONES IN THE PARK 

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Nesse 5 de Julho de 1969, um sábado também, encontrava-se uma multidão calculada em mais de 250.000 pessoas no Hyde Park de Londres. Pretexto? Imaginem... assistir a um concerto dos Rolling Stones.
Mas não era um concerto qualquer. Brian Jones tinha morrido dois dias antes, afogado na piscina da sua mansão de campo, e havia, para além da consternação natural, um sentimento de culpa nos restantes por Brian ter sido afastado do grupo apenas um mês antes da sua morte.

O concerto daquele dia teria assim uma dupla função: por um lado prestar a devida homenagem a Brian; por outro, apresentar Mick Taylor, o novo guitarrista (vindo da banda de John Mayall). Era o 1º concerto oficial desde Abril de 67. Como grupos de suporte: Family, Third Eat, Battered Ornamet, a banda New Church de Alexis Korner e a estreia em grande dos lendários King Crimson.

Uma enorme fotografia de Brian Jones a cores preside a um exótico palco metido entre palmeiras colocadas em grandes vasos. São cerca das cinco e meia da tarde. Como um canto do cisne da época hippie, Jagger aparece com um vestidinho branco de bailarina e o seu - a partir dessa altura habitual - cruxifixo/medalha de madeira. Um barulho infernal de gritos invade o recinto. Brian parecia ter sido esquecido. De braços levantados, pedindo silêncio, Jagger grita: «Calma, um minuto. Eu queria dizer qualquer coisa acerca de Brian. Não sei como fazer isto, mas vou tentar.». Recitou um fragmento do "Adonis" de Shelley, enquanto voavam milhares de borboletas brancas e muitas raparigas choravam nas primeiras filas:



«Life, like a dome of many-coloured glass,
Stains the white radiance of Eternity,
Until Death tramples it to fragments. - Die,
If thou wouldst be with that which thou dost seek!
Follow where all is fled! - ...»

A música começou a rolar, com "I'm yours, she's mine", de Johnny Winter, prolongando-se a actuação cerca de uma hora.



Aqueles Stones eram já os que mais seriam recordados pelo mundo, com um novo som e uma nova imagem. O concerto foi filmado pela Granada TV e editado posteriormente com o título "The Stones In The Park".

GERAÇÃO DE 60 

ALLEN GINSBERG
(1926/06/03 - 1997/04/05)


Uma das referências culturais da "Beat Generation", juntamente com Timothy Leary, William Burroughs e Jack Kerouac.

A sua reputação de poeta visionário e abertamente político foi estabelecida por "Howl" (1956), que expressava e modelava o espírito da geração beat e criticava o materialismo da sociedade americana contemporânea. A escrita poética deste autor recorre abundantemente às filosofias orientais.

Ginsberg viajou muito — para Cuba, para a Índia e para a Checoslováquia nos anos 60, e para a China e Nicarágua nos anos 80 —, divulgando as suas ideias políticas de cariz zen-socialista. O outro grande poema deste autor, "Kaddish" (1961), tem como assunto o esgotamento e a morte da sua mãe, que era doente esquizofrénica. A compilação "Collected Poems 1947-1980" , contendo os seus trabalhos mais importantes, foi publicado em 1985.

Homossexual confesso, defensor do consumo das drogas (nomeadamente LSD), influenciou inúmeras figuras do universo pop: Bob Dylan (a quem acompanhou na digressão de 1977), Patti Smith, Jerry Garcia, John Cage e tantos outros. Autor de "The Fall Of America" (1974) que lhe valeu o National Book Award, veio a criar, juntamente com Anne Waldman, uma escola de poesia no Colorado, "The Jack Kerouac School Of Disembodied Poetics".

Um dia, numa conferência de imprensa, houve um jornalista que lhe perguntou qual era o significado da sua poesia. E Ginsberg respondeu: nudez. E o outro insistiu: o que quer dizer com nudez? Ginsberg despiu-se e ficou nu perante a assistência. Ginsberg era mestre em tiradas do género "aposto que toda a gente na Casa Branca snifa cocaína" ou "tenho com a América a mesma relação que tinha com a minha mãe esquizofrénica".

Em 1996 gravou em disco o seu poema "The Ballad Of The Skeletons", com música de Philip Glass e acompanhamento de Paul McCartney. No final dos anos 50, numa sessão de psicanálise com o psiquiatra Philip Hicks, desabafa: «gostava de nunca mais trabalhar, nunca mais voltar a fazer o género de coisas que estou a fazer agora; e não fazer mais nada a não ser escrever poesia e ter tempo para passar o dia fora de casa e ir ver museus e ver os amigos. E gostava de viver com alguém - e até pode ser um homem - e explorar relações nesse sentido. E cultivar as minhas percepções, cultivar o visionário que há em mim, ter uma existência literária e de eremita citadino.»

Passou os últimos dias da sua vida a escrever poemas e morreu de um cancro no fígado diagnosticado apenas umas semanas antes. Tinha 70 anos e estava rodeado pela família e amigos no seu apartamento de East Village, em Manhattan, Nova Iorque.

ESCUTA PERMANENTE 

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FIELDS OF GOLD
(Sting)

You'll remember me when the west wind moves
Upon the fields of barley
You'll forget the sun in his jealous sky
As we walk in fields of gold
So she took her love for to gaze awhile
Upon the fields of barley
In his arms she fell as her hair came down
Among the fields of gold

Will you stay with me, will you be my love
Among the fields of barley?
You'll forget the sun in his jealous sky
As we lie in fields of gold
See the west wind move like a lover so
Upon the fields of barley
Feel her body rise when you kiss her mouth
Among the fields of gold

I never made promises lightly
And there have been some that I've broken
But I swear in the days still left
We'll walk in fields of gold

Many years have passed since those summer days
Among the fields of barley
See the children run as the sun goes down
Among the fields of gold
You'll remember me when the west wind moves
Upon the fields of barley
You can tell the sun in his jealous sky
When we walked in fields of gold


(Eva Cassidy, 1996)

Pensamento do Dia 

O amor é como uma clepsidra: quando o coração se enche, o cérebro esvazia-se

MEDICINA TROPICAL 

O calor era alucinante. A chuva caía pesada, num jogo de massacre.
Sentiu que tinha uma tremenda dor de cabeça. Dirigiu-se ao posto clínico.
- Isso é coisa sem importância – disse o médico.
- Tome estes comprimidos – deu-lhe três.
Tomou.
O calor continuava, sólido e exacto. A chuva também, persistente.
A dor de cabeça estava a aumentar. Voltou ao posto clínico.
- Vamos já tratar disso – afirmou o médico – Ora vire-se para lá.
Virou-se.
O médico proporcionou-lhe quatro supositórios.
O calor ainda; e a chuva. Sempre.
A dor de cabeça a estoirá-lo. Retornou ao posto clínico.
- Vai ver que fica bom – explicou o médico – Ora abra a boca.
Abriu.
O médico extraiu-lhe imediatamente dois molares e um canino.
O calor estava realmente alucinante. A chuva era espaço líquido.
A dor de cabeça a invadir-lhe o corpo todo. Foi ao posto clínico. Uma vez mais.
- Então como vai isso? – perguntou o médico.
Puxou o facão e espetou-o, preocupado e consciente, através do médico.
Resultou.


(Mário-Henrique Leiria in “Contos do Gin-Tonic”, 1973)

sexta-feira, setembro 26, 2003

DISCOTECA BÁSICA 

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CANDLES IN THE RAIN (MELANIE, 1970)


(Candles In The Rain - Lay Down (Candles In The Rain) - Carolina In My Mind - Citiest People - What Have They Done To My Song Ma - Alexander Beetle - The Good Guys - Lovin Baby Girl - Ruby Tuesday - Leftover Wine)
NOTA: Em Inglaterra o tema "Alexander Beetle" foi substituído por "Close To It All"

LP editado em Maio de 1970 nos EUA (Buddah BDS 5060; #17)
LP editado em Setembro de 1970 na GB (Buddah 2318 009; #5)
CD editado em 1996 nos EUA (Buddah 75517-49509-2) - inclui os temas adicionais "Almost Like Being In Love" e "Dream Seller"

www.gemm.com


Melanie conseguia transmitir sempre uma sensação genuí­na de entrega total, tal a paixão e o fervor com que nos brindava com as suas canções. "Candles in the Rain" é o primeiro grande album dela, concebido cuidadosamente em todos os detalhes, sendo a maioria dos temas nele incluidos da sua autoria (apenas "Carolina in my Mind", de James Taylor e "Ruby Tuesday" dos Stones fazem as excepções) . A canção-tí­tulo, "Candles in the Rain" foi composta logo a seguir à  sua participação no festival de Woodstock e gravada com a ajuda dos Edwin Hawkins Singers (aqui numa versão alongada de cerca de 8 minutos). "What Have They Done To My Song Ma", um dos seus temas mais emblemáticos, seria também um grande êxito na interpretação (muito aquém do original, diga-se de passagem) dos New Seekers.

Pensamento do Dia 

O encanto é o que algumas pessoas têm até começarem a sabê-lo

O Porquinho Que Dormia de Costas 

Havia um casal de porquinhos cujo único motivo de discórdia era a maneira como cada um deles dormia.
Dona Porquinha durante o sono ia sempre mudando de posição. Esta maneira de dormir concorreu para que adquirisse as mais elegantes formas porcinas (redondinha que nem um barril).
Já o Sr. Porquinho tinha uma maneira incómoda de dormir. Deitava-se de barriga para o ar e assim permanecia durante o sono. Por isso ressonava de tal maneira que por vezes acordava a vizinhança. E esta maneira de dormir provocava-lhe também tão grandes estremecimentos por todo o corpo que as pernas e os braços se agitavam em violento escoicinhar. E a barriga movia-se de tal maneira que mais parecia uma montanha a desabar. De tanto dormir de costas o lombo, a parte mais apreciada da beleza na espécie porcina, estava liso como uma tábua de engomar.
Dona Porquinha, depois que passaram a dormir em camas separadas, habituou-se à  maneira de dormir do marido.
Um dia, o Lobo Mau conseguiu entrar em casa enquanto os porquinhos dormiam.
Foi-se à  Dona Porquinha e, enquanto ela se ia virando como um frango no espeto, foi-a deglutindo paulatinamente.
Acabado aquele repasto, como ainda estava esfomeado, tentou também comer o Sr. Porquinho. Mas neste caso foi mais difí­cil porque o Sr. Porquinho, mesmo a dormir aplicou-lhe tantos pontapés e bofetões que o Lobo Mau teve de desistir, tendo só conseguido abocanhar-lhe um pequeno pedaço da parte de baixo da barriga.
Quando o Sr. Porquinho acordou percebeu logo o que tinha acontecido. Depois de chorar a morte da esposa, o Sr. Porquinho, que era um tanto filósofo, pensou lá com os seus botões:
«Afinal há males que vêm por bem, pois se não fosse esta minha maneira de dormir já estava a estas horas no papo do Lobo e assim a única coisa que ele me conseguiu comer foi um pequeno bocado que, aliás, até já nem me faz falta porque perdi a minha companheira».


(Pedro Oom in "Actuação Escrita", 1980)

quinta-feira, setembro 25, 2003

OLHARES 

"MATERNIDADE" (Almada Negreiros, 1935)
Óleo sobre tela, 100 x 100 cm
Lisboa, Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian

"NIGHTHAWKS/AVES DA NOITE" (Edward Hopper, 1942)
Óleo sobre tela, 76.2 x 144 cm
Chicago, Instituto de Arte de Chicago

"LA PHILOSOPHIE DANS LE BOUDOIR/A FILOSOFIA NO BOUDOIR" (René Magritte, 1947)
Óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Colecção Privada

"A MENINA DO CHAPÉU AZUL" (Henrique Medina, 1969)

"MR. AND MRS. CLARK AND PERCY" (David Hockney, 1970)
Óleo sobre tela, 213 x 304 cm
Colecção Privada

RIFÃO QUOTIDIANO 

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Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece


(Mário-Henrique Leiria in "Novos Contos do Gin", Janeiro de 1974)

MÁXIMA 

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Se Portugal não fosse Portugal todos os portugueses seriam estrangeiros.


(in "Pão com Manteiga", 1980)

Entrego-te as mãos da escuridão... 

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Entrego-te as mãos da escuridão
peço-te que me dês um pouco de luz.
Entrego-te a sombra do desejo
peço-te que ao menos não sejas ilusão.
Entrego-te TUDO, TUDO o que tenho
peço-te que sejas real.
Entrego-te as minhas dúvidas
peço-te o PORQUÊ da vida.

QUERO-TE REAL, É SÓ ISSO!

Mas não te quero FLOR
porque vais murchar.
Não te quero HOMEM
porque vais morrer.
Não te quero MONTE
porque a erosão desgasta-te.
Não te quero ROCHA
porque me lembra a indiferença.
Não te quero CÉLULA
porque me mete medo
tamanho poder em tão pouca matéria.
Não te quero ESTRELA
porque me lembra o sonho.
Não te quero SOL
porque não poderei olhar-te.
Não te quero SANGUE
porque me lembra a morte.
Não te quero PÓ
porque me lembra a destruição.
Não te quero FORMA CAPRICHOSA
porque me lembra a loucura.
Não te quero MÚSICA
porque ela é inconstante
e não me quero lembrar
da minha própria inconstância.

Enfim...
Quero-te REAL mas não CONCRETO
porque a matéria lembra-me vida
e eu quero simplesmente
O PORQUÊ DA VIDA!


(Luísa Leça Pereira 1970, Setembro 22)

quarta-feira, setembro 24, 2003

SLB 


Está decidido! Finalmente! O Sport Lisboa e Benfica vai passar a designar-se por Sociedade de Lazer e Brindes. Na redacção dos novos estatutos, em que foi patente o cuidado em evitar qualquer referência a fins lucrativos, destaca-se o carácter beneficiário da nova sociedade, o qual será traduzido na organização de festas, quermesses, leilões de antigos e obsoletos objectos armazenados ao longo dos anos e, sempre que necessário, viagens de lazer e turismo (de preferência no interior do país), desde que devidamente patrocinadas por simpatizantes que comunguem do mesmo espírito altruísta da nova sociedade. A nova sede ficará instalada no nº 8 da Travessa da Boa Vida, na localidade de Benesses.

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

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PLANET OF THE APES/O HOMEM QUE VEIO DO FUTURO (1968) (POSTER)

Estreia nos EUA: 1968, Fevereiro 8
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Vencedor de 1 Oscar honorário: John Chambers, pelo trabalho de maquilhagem
Nomeado para mais 2 Oscars: Música e Guarda-Roupa
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Produção: Arthur P. Jacobs
Realização: Franklin J. Schaffner
Argumento: Michael Wilson e Rod Serling, segundo a novela de Pierre Boulle
Cinematografia: Leon Shamroy
Música Original: Jerry Goldsmith
Montagem: Hugh S. Fowler
Direcção Artística: William J. Creber e Jack Martin Smith
Cenários: Norman Rochett e Walter M. Scott
Guarda-Roupa: Morton Haack

CAST:

Charlton Heston .... George Taylor
Roddy McDowall .... Cornelius
Kim Hunter .... Zira
Maurice Evans .... Dr. Zaius
James Whitmore .... President of the Assembly
James Daly .... Honorious
Linda Harrison .... Nova
etc.


Este filme faz-me desejar que a máquina do tempo estivesse já inventada neste início do século XXI. Infelizmente a realidade continua muito aquém da ficção e assim não posso concretizar o projecto que tinha em mente: a de pegar em alguém nascido nos últimos 30 - 40 anos e fazê-la recuar a 1968. Durante a viagem todas as referências e memórias fílmicas seriam apagadas, de modo a que essa pessoa pudesse assistir à estreia de "Planet of the Apes" com o encantamento próprio de um estado em fase pura. Tal como eu, que tive a felicidade de viver essa experiência aos 15 anos, no próprio ano em que o filme foi estreado. É que se trata de algo irrepetível, quase como o despertar para o primeiro amor, que pode sempre ser lembrado mas jamais revivido.

Nas últimas décadas, a evolução da tecnologia foi conseguindo ultrapassar muitas barreiras; e o advento mais recente dos computadores, capazes de recriar o imaginário mais secreto, habituou-nos a poder ver tudo o que quisermos no écran. Mas em 1968 não era assim; e "Planet of the Apes" começou logo a originar problemas de produção que nunca antes tinham sido encarados. O principal foi sem dúvida o de levar as pessoas a acreditar em macacos falantes, sem se cair no ridículo. John Chambers (falecido recentemente a 25 de Agosto, antes de completar os 78 anos) seria o homem a conseguir ultrapassar tal desafio, ao elaborar as magníficas máscaras atrás das quais actores talentosos como Roddy McDowall ou Kim Hunter tornaram credíveis os evoluídos símios, transformando-os em poderosos caracteres. Mas esta foi apenas uma parte do sucesso do filme. Um dos grandes trunfos foi sem dúvida o brilhante argumento, baseado na obra do francês Pierre Boulle (já conhecido, na altura, por ter escrito "The Bridge on the River Kwai"). Michael Wilson, escritor cujo nome esteve na lista negra e Rod Serling, conhecido pela sua criação televisiva "The Twilight Zone / A Quinta Dimensão", conseguiram criar, a partir do livro, uma imaginativa sátira sobre a vaidade e o orgulho humanos. Para além da fantasia e da aventura, o filme teve a argúcia de tocar uma corda sensível às audiências de 1968, no modo como fazia a apologia do anti-autoritarismo e do anti-militarismo. E depois, aquele final..., um dos mais inquietantes e inesquecíveis de que há memória.

O Homem Que Veio Do Futuro parte de Cabo Kennedy em 14 de Julho de 1972, em expedição destinada a comprovar a teoria de um cientista (no livro o Professor Antelle, no filme o Dr. Haslein), o qual afirmava ser possível viajar no espaço e acompanhar essa viagem de uma outra no tempo. Durante 11 meses os quatro tripulantes da nave espacial, em hibernação, percorrem dois mil anos (a data registada no painel de bordo, quando a nave se despenha é a de 25 de Novembro de 3978). Depois é o acordar num planeta desconhecido, perdido no tempo e no espaço, onde os aguarda uma realidade invertida, aparentemente ilógica, onde os humanos são bestas irracionais e os símios senhores dominantes e todo poderosos. Cabe aqui referir a surpreendente força que possui a primeira meia hora de filme. Uma força assente na simplicidade, na economia de meios, mas que consegue agarrar desde logo o espectador e guiá-lo através do desconhecido e do misterioso, até ao contacto com os primeiros humanos e a entrada em cena dos macacos. Julgo até que, a par de toda a sequência final, são estes primeiros trinta minutos os responsáveis por, ao longo dos anos, ter regressado tantas vezes a este filme.

Um filme de aventuras adulto, intencional, polémico e inquietante, "Planet of the Apes" permitiu a Franklin Schaffner (falecido a 2 de Julho de 1989) sair temporariamente do anonimato (viria a ganhar um Oscar em 1970 por "Patton" e após a realização da adaptação do best seller "Papillon", voltaria a caír no esquecimento) por saber rodear-se de uma equipa de técnicos admirável, equipa essa que construiu uma verdadeira obra de arte nos anais do cinema de ficção científica.
Além de poder ser visto como um filme de aventuras (e que aventuras!), "Planet of the Apes" necessita de reflexão. É um filme polémico sobre a animalidade do homem, que fabrica guerras e se destrói a si próprio e aos seus semelhantes só pelo puro prazer de matar. Com os anos, este filme tornou-se um ícon da cultura pop dos anos 60. Deu origem a 4 sequelas (de valor e interesse sempre decrescentes) e a uma série televisiva. Finalmente, em 2001, Tim Burton, confesso fan do filme original, atreveu-se a fazer um remake (uma homenagem, como ele afirmou numa entrevista). Com toda a parafernália técnica dos dias de hoje, mas sem conseguir beliscar o estatuto classicista do original. Os tempos são outros e a inocência há muito que foi perdida.



Citações Memoráveis:

Taylor: "Six months in deep space. By our time, that is. According to Dr. Haslein's theory of time, in a vehicle travelling nearly the speed of light, the earth has aged nearly 700 years aince we left it. While we've aged hardly at all".

Taylor: "Does man, that marvel of the universe, that gloriuos paradox who sent me to the stars, still make war against his brother?".

Landon: "Well where are we? Do you have any notion, skipper?"
Taylor: "We're some three hundred and twenty light years from Earth, on an unnamed planet, in orbit around a star in the constellation of Orion. Is that close enough for you?".

Taylor: "You're 300 light years from your precious planet. Your loved ones are dead and forgotten for 20 centuries. 20 centuries! Even if you could get back, they'd think you were something that fell out of a tree".

Taylor: "I'm a seeker too. But my dreams aren't like yours. I can't help thinking that somewhere in the universe there has to be something better than man. Has to be".

Taylor: "If this is the best they've got around here, in six months we'll be running this planet".

Zira: "Well, bright eyes, is our throat feeling better? Still hurts, doesn't it?"
Julius: "See? He keeps pretending he can talk"
Zira: "That bright eyes is remarkable! He keeps trying to form words"
Julius: "You know what they say - «human see, human do»".

Zira: "Bright eyes... Show him. Go ahead, do your trick. Speak. Go on. Speak again. There. Can you believe it?"
Dr. Zaius: "Yes, amusing. A man acting like an ape".

[The first words ever spoken by a human to the apes]
Taylor: "Taket your stinking paws off me, you damn dirty ape!"

Taylor: "Imagine me needing someone. Back on Earth I never did. Oh, there were women. Lots of women. Lots of love-making but no love. You see, that was the kind of world we'd made. So I left, because there was no one to hold me there".

Taylor: "It's a mad house! A mad house!".

Cornelius: [reading from the sacred scrolls of the apes] Beware the beast man, for he is the Devil's pawn. Alone among God's primates, he kills for sport or lust or greed. Yea, he will murder his brother to possess his brother's land. Let him not breed in great numbers, for he will make a desert of his home and yours. Shun him, for he is the harbinger of death".

[Brandishing a rifle]
Taylor: "Don't try to follow me. I'm pretty handy with this.
Dr. Zaius: Of that I'm sure. All my life I've awaited your coming and dreaded it".

Lucius: "I still say you're making a mistake"
Taylor: "That's the spirit. Keep them flying"
Lucius: "What?"
Taylor: "The flags of discontent. And remember, never trust anybody over 30".

Taylor: "Doctor, I'd like to kiss you goodbye"
Zira: "All right, but you're so damn ugly".

Dr. Zaius: "The forbidden zone was once a paradise. Your greed made a desert of it ages ago"
Taylor: "It still doesn't give me the why. A planet where apes evolved from men? There's got to be an answer"
Dr. Zaius: "Don't look for it, Taylor. You may not like what you find".

Zira: "What will he find out there, doctor?"
Dr. Zaius: "His destiny".

Taylor: "Oh, my God! I'm back. I'm home. All the time, it was... We finally really did it. You maniacs! You blew it up! Ah, damn you! Goddamn you all to hell!".

Algumas Curiosidades:

Edward G. Robinson foi escolhido de início para desempenhar o papel do Dr. Zaius, tendo chegado a filmar um teste com Charlton Heston. Aliás, já não era a primeira vez que os dois actores contracenavam juntos. Acontecera em 1956, nos "Ten Commandments" / "Os 10 Mandamentos", e mais tarde em "Soylent Green" (1973). Robinson acabou por não fazer parte do elenco devido ao seu estado de saúde: problemas cardíacos impediam que se sujeitasse diariamente aos demorados e cansativos trabalhos de maquilhagem.

Durante as pausas das filmagens os actores tendiam a agrupar-se segundo as diversas espécies símias: macacos com macacos, chimpanzés com chimpanzés, orangotangos com orangotangos. Não foi nada que tivesse sido organizado ou exigido; simplesmente esse facto curioso acontecia naturalmente.

A célebre e inesquecível cena final foi filmada na praia Zuma, situada no sul da Califórnia.

Na novela original a sociedade símia é descrita como tecnologicamente muito avançada. Contudo, as limitações do orçamento obrigaram a uma caracterização mais modesta e primitiva do modo de vida dos macacos.

Pensamento do Dia 

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A beleza de uma mulher começa quando o olhar de um homem deixa de ser um simples olhar e começa a tornar-se num desejo

A Invasão dos BODYSNATCHERS já começou? 

Será que tudo aquilo que víamos nos filmes dos bodysnatchers não era afinal ficção? Será que a apropriação dos humanos pelos profanadores já começou? E será que a invasão principiou logo aqui, em Portugal? E que uma das primeiras vítimas tenha sido o coitado do engenheiro Sousa Marques? Porque, pensando bem, é a única teoria lógica que pode explicar como em escassos dias se passa de um pedido de demissão junto ao ministro tutelar do IEP para uma aceitação, das mãos do mesmo ministro, do cargo de presidente do mesmissimo Instituto. Por favor, ajudem-me a encontrar outra explicação mais terrena ou caso contrário temo começar a andar desconfiado das pessoas com quem me relaciono e nas quais começo já a notar sinais preocupantes de dupla personalidade.

ZONA VIP 

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«Não me lembro de quantos amantes tive, foram tantos. Nunca me interessei na contagem, só no jogo. Não são os homens na minha vida que contam, mas a vida nos meus homens». MAE WEST

«Não coloco de parte que o homem necessite de fé; sou a favor de qualquer coisa que nos leve através da noite, seja ela a oração, calmantes ou uma garrafa de Jack Daniel's». FRANK SINATRA

«Uma vez visitei o "The New York Times" e eles mostraram-me o meu obituário. Ofereci-me para o dirigir mas recusaram». GROUCHO MARX

«Se as pessoas estão a falar a sério sobre a revolução, elas têm de travar uma revolução para todas as pessoas oprimidas, e isso inclui os polícias, que são as pessoas mais oprimidas desta sociedade». JOAN BAEZ

«Eu? Sóbria? Nunca! Não aceito esse argumento. Nunca, nunca! Penso que representar deve ser maior do que a vida. Os guiões devem ser maiores que a vida. Tudo deve ser maior do que a vida!». BETTE DAVIS

«Cristo não era branco, Cristo era negro. O negro, pobre manipulado, foi persuadido que Cristo era branco para o induzirem a adorar o homem branco». MALCOLM X

«Se um homem decide dar uma rapidinha, pode depois ir ao lavatório mais próximo e deixar tudo lavadinho como novo. As mulheres não. Elas vagueiam sabendo que as coisas continuam lá dentro». GOLDIE HAWN

«Costumávamos entrar para o carro e olhar para o John e dizer: "Meu Deus, és mesmo um fenómeno!" e rí­amos, porque de facto era apenas ele». RINGO STARR

«Ringo e eu vamos casar um com o outro. Mas isto é algo que deve ficar em segredo. As pessoas poderiam pensar que somos maricas». GEORGE HARRISON

«As pessoas à  volta de John viam-me como uma ameaça terrí­vel. Isto é, ouvi dizer que existiam planos para me matar. Não os Beatles, mas as pessoas em redor deles». YOKO ONO


DISCOTECA BÁSICA 

ABBEY ROAD (THE BEATLES, 1969)


(Come Together - Something - Maxwell's Silver Hammer - Oh! Darling - Octopus's Garden - I Want You (She's So Heavy) - Here Comes The Sun - Because - You Never Give Me Your Money - Sun King - Mean Mr. Mustard - Polythene Pam - She Came In Through The Bathroom Window - Golden Slumbers - Carry That Weight - The End - Her Majesty)

LP editado em 26 de Setembro de 1969 na GB (Apple PCS 7088; #1)
LP editado em 1 de Outubro de 1969 nos EUA (Apple, 383; #1)
CD editado em Novembro de 1988 (Apple, CDP7464462)


"And in the end... the love you take is equal to the love you make"

Há 34 anos atrás Setembro também estava a chegar ao fim e eu encontrava-me de regresso a Moçambique para lá iniciar o último ano do liceu. As férias tinham sido óptimas mas a jóia mais preciosa leva-a na bagagem comigo: o último album dos Beatles, acabadinho de ser editado. Só quem viveu aqueles anos poderá entender toda a euforia de um jovem de 16 anos sabendo antecipadamente ir ser a primeira pessoa a mostrar aos colegas e amigos aquele verdadeiro tesouro.

Último album gravado pelos Fab Four (como não podia deixar de ser, nº 1 em ambos os lados do Atlântico), é porventura o mais perfeito de toda a história da música rock. E isto apesar de nada o fazer prever. Com efeito, desde a morte de Brian Epstein que as tensões entre os quatro Beatles não tinham parado de crescer. Atingira-se um ponto em que não conseguiam concordar em nada, sobretudo na música que cada um queria fazer. Relativamente a "Abbey Road", John queria que fosse um album de rock 'n' roll puro e simples, enquanto que Paul antevia antes uma pop opera de diferentes canções, todas ligadas num longo medley. O resultado, pelos vistos, satisfez a ambos. O lado 1 ajusta-se mais às ideias de John que contribuía com duas faixas; "Come Together" e "I Want You"; Paul assinava mais duas, "Oh! Darling" e "Maxwell's Silver Hammer" e George e Ringo ficavam-se com uma cada, respectivamente "Something" e "Octopus's Garden". O lado 2 contém então a suite desejada e escrita por Paul (um total de 9 temas, desde "You Never Give Me Your Money" até a "Her Majesty"), além de mais 2 temas iniciais: "Here Comes The Sun", de George, e "Because", de John. O resultado global é magnífico, não se conseguindo imaginar um melhor testamento musical. É o 1º album do grupo a ser editado apenas em stereo (era usual, até então, os albuns serem editados simultâneamente em mono e em stereo), inovação rapidamente adoptada pela maioria das companhias discográficas. Durante as sessões de "Abbey Road" foram ainda gravadas mais 6 faixas, não aproveitadas na edição final do album. A fotografia da capa (da autoria de Iain MacMillan) mostra os Beatles a atravessar a passadeira em Abbey Road, afastando-se do edifício dos estúdios. Este pormenor, mais o título da penúltima faixa ("The End"), fazia temer o pior. E o pior aconteceu realmente, seis meses depois, em 10 de Abril de 1970, quando Paul anunciou oficialmente ao Mundo a extinção do grupo mais famoso de todos os tempos.


terça-feira, setembro 23, 2003

O Coelhinho Que Nasceu Numa Couve 

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor, a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.
O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava, considerava-a como sua verdadeira mãe.
A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O coelhinho, ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde, cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo, os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.
O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.
Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.
Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro, mais magro e faminto.
Então a mãe couve disse-lhe assim:
- Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos; por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?
O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.


(Pedro Oom in "Actuação Escrita", 1980)

Só Gosto de Ti... 

- Querido, tu preferes uma mulher bonita ou uma mulher inteligente?
- Nem uma nem outra, querida! Sabes bem que só gosto de ti.

ESCUTA PERMANENTE 

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ALWAYS ON MY MIND
(Carson / James / Christopher)

Maybe I didn't treat you
quite as good as I should have
maybe I didn't love you
quite as often as I could have
little things I should have said and done
I just never took the time.

You were always on my mind…

Maybe I didn't hold you
all those lonely, lonely times
and I guess I never told you
I’m so happy that you're mine
if I made you feel second best
girl, I'm so sorry, I was blind.

Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
give me, give me one more chance to keep you satisfied.


(Elvis Presley, Novembro 1972)


Pensamento do Dia 

...
A saudade é a esperança de que um dia tudo volte a acontecer

segunda-feira, setembro 22, 2003

ETERNAMENTE TUA 


...
Serei eternamente tua pois
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes magoar-me,
fazer-me calar que
ainda assim serei eternamente tua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e que,
finalmente, quando conheceste o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixar-te-ei livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltares
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas,
revelar-te-ei que estava à tua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.


(Tatiana V. Mattos)

ORA ESSA! 

...
Uma bichona entra numa casa de banho de senhoras. A empregada irritada diz-lhe:
- Desculpe, mas aqui é para senhoras!
- E eu? Sou alguma puta?

SEPARATA GRATUITA 

...
O QUE ACONTECERIA SE O ARCEBISPO DE BEJA FOSSE AO PORTO E DISSESSE QUE ERA NAPOLEÃO

Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.
Então o arcebispo de Beja dizia:
- Sou a Josefa de Óbidos.
Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o Castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso, davam-lhe trouxas d'ovos.
Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.

(Mário-Henrique Leiria in "Novos Contos do Gin", Janeiro 1974)

OLHARES 

"MAD DOGS/CÃES RAIVOSOS" (Jack Vettriano, 199?)
Óleo sobre tela, 50.8 x 61 cm
Londres, Galeria Portland

"MENDING THE NETS/REMENDANDO AS REDES" (Winslow Homer, 1882)
Óleo sobre tela, 69 x 48.6 cm
Washington D.C., Galeria Nacional de Arte

"MÄDCHEN MIT ROSE/RAPARIGA COM ROSA" (Otto Dix, 1923)
Óleo sobre tela, 61 x 48.5 cm
Colecção Privada

"PERSONAGE À UNE FENÊTRE/PERSONAGEM À JANELA" (Salvador Dali, 1925)
Óleo sobre tela, 103 x 75 cm
Madrid, Museu Nacional Reine Sofia

"DER KUSS/O BEIJO" (Gustav Klimt, 1907/1908)
Óleo sobre tela, 180 x 180 cm
Viena, Galeria Österreichische

ACIDENTE 

Nos Estados Unidos da América um milionário ao volante de um cadillac último modelo atravessa uma povoação a cem à hora. De repente atropela dois miúdos negros que vêm a sair da escola e faz uma grande travagem. Há sangue por todo o lado! O sheriif, aproxima-se solícito e pergunta-lhe:
«a que velocidade vinham os rapazes quando chocaram com o seu carro?»

PARA REFLECTIR... 

...
será que grande parte dos indivíduos que reivindicam aumentos de salário sofrem de frustrações graves na sua vida conjugal?

VIVA O DIA SEM CARROS! 

...
mas não era necessário gastar-se um dia inteiro nisso; bastavam uns segunditos todos os dias: se cada um dos 10 milhões de portugueses deste país andasse 5 metros a pé, por dia, ao fim de um ano o país teria dado um passo gigantesco em frente, na senda do Progresso.

CONJUGAÇÃO DO VERBO "ANDAR NA BOA VAI ELA" 

...
Eu ando na moina
tu andas à malta
ele anda na gandaia
nós andamos à tuna
vós andais na vida airada
eles andam a apanhar moscas

eu andava aos cucos
tu não fazias nenhum
ele andava a jardinar
nós andávamos ao osso
vós andaveis aos gambozinos
eles não faziam peva

eu andarei na moinice
tu andarás de braços caídos
ele andará ao léu
nós coçaremos o rabo pelas esquinas
vós pintareis os tectos ao Rossio
eles não farão a ponta de um corno.


(in "Pão com Manteiga", 1980)

Pois... 

...
Um elefante e uma formiga fazem amor no deserto. A certa altura a formiga diz:
«Já reparaste na poeira que estamos a levantar?»

FILMES MUITO CÁ DE CASA 

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THE GRADUATE/A PRIMEIRA NOITE (1967) (POSTER)

Estreia nos EUA: 1967, Dezembro 21
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Vencedor de 1 Oscar: Realização
Nomeado para mais 6 Oscars: Filme, Argumento-Adaptado, Cinematografia, Actor Principal (Dustin Hoffman), Actriz Principal (Anne Bancroft) e Actriz Secundária (Katharine Ross)
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Realização: Mike Nichols
Argumento: Calder Willingham e Buck Henry, segundo a novela de Charles Webb
Cinematografia: Robert Surtees
Música Original: Paul Simon (Música adicional de Dave Grusin)
Montagem: Sam O’Steen
Direcção Artística: Richard Sylbert
Cenários: George R. Nelson
Guarda-Roupa: Patricia Zipprodt

CAST:
Anne Bancroft .... Mrs. Robinson
Dustin Hoffman .... Benjamin Braddock
Katharine Ross .... Elaine Robinson
William Daniels .... Mr. Braddock
Murray Hamilton .... Mr. Robinson
Elizabeth Wilson .... Mrs. Braddock
Buck Henry .... Hotel Desk Clerk
Brian Avery .... Carl Smith
Walter Brooke .... Mr. McGuire
Norman Fell .... Mr. McCleery
Alice Ghostley .... Mrs. Singleman
Marion Lorne .... Miss DeWitte
Eddra Gale .... Woman on Bus
etc.

Segunda longa-metragem de Mike Nichols (a estreia ocorrera no ano anterior com "Who's Afraid of Virginia Wolf?/Quem Tem Medo de Virginia Wolf?"), este pequeno filme de modesto orçamento, estreado nos EUA poucos dias antes do Natal de 67, viria a tornar-se um campeão de bilheteiras em todo o mundo durante o ano de 1968. Vários factos contribuiram para tal sucesso. Em primeiro lugar a época em que o filme apareceu: estava-se no final dos anos 60, a contestação estudantil pairava no ar (Maio de 68 estava mesmo ali, à  esquina) e o filme, sem ser panfletário (não se fala do Vietname e dos hippies, da segregação racial ou dos direitos das mulheres, tudo temas tão em voga na altura), abordava na sua essência todo um conflito de gerações.

Benjamim Braddock, recém formado, regressa a casa um pouco mais do que preocupado com o seu futuro. À sua espera encontra-se um modo de vida estereotipado, simbolizado no sucesso económico dos pais e dos amigos. E o seu destino está já traçado, não parecendo haver fuga possível, mesmo que ele se refugie no fundo da piscina do jardim. Toda a primeira parte do filme trata de cedência; cedência a um mundo de facilidades, de convenções. Mesmo a relação com mrs. Robinson é uma relação de cedência: ao sexo fácil, à  monotonia, ao deixar andar. Depois aparece Elaine e tudo muda. A cena na cozinha onde Ben comunica aos pais a sua decisão é paradigmática. Contra tudo e contra todos (até contra a própria Elaine), Ben resolve partir em busca de algo mais, que espera conseguir com a ajuda da única pessoa junto à  qual se sente bem. Ao fim e ao cabo, é o passo para diante, na direcção dos sonhos e das aspirações que existem em cada um de nós. É por isso que a cena citada da cozinha é tão importante, mesmo fundamental para o sucesso do filme; ela marca o ponto de viragem, do não retorno.

Outro grande trunfo do filme é o naipe dos intérpretes escolhidos. Dustin Hoffman, na altura um ilustre desconhecido de 30 anos, dá-nos um adolescente de 21 anos perfeito nas suas dúvidas e temores, apesar de ir contra a imagem descrita no livro e que os produtores procuravam na altura: alguém de porte atlético, louro e de olhos azuis, tipo surfista californiano (Robert Redford chegou a ser contactado mas declinou o convite por considerar não ter a ingenuidade requerida para o personagem). De um dia para o outro Dustin Hoffman tornou-se uma star, mesmo não tendo conseguido o Oscar para o qual foi nomeado (o vencedor viria a ser Rod Steiger no filme "In The Heat of The Night / No Calor da Noite").
Anne Bancroft (na realidade apenas 6 anos mais velha do que Dustin, embora no filme a diferença seja propositada e substancialmente mais acentuada), já com uma carreira premiada de 15 anos (vencedora do Oscar de Actriz Principal em 1963 por "The Miracle Worker / O Milagre de Ann Sullivan" ) consegue transmitir-nos sobretudo a tristeza do personagem, para além do carácter manipulativo e sem escrúpulos do mesmo. Também nomeada, viria de igual modo a perder para Katharine Hepburn (no filme "Guess Who's Coming to Dinner / Adivinha Quem Vem Jantar").
Katharine Ross, na beleza tranquila dos seus 25 anos, viria também a ser nomeada na categoria de Actriz Secundária (e à  semelhança dos seus colegas também perderia a ambicionada estatueta para Estelle Parsons no filme "Bonnie & Clyde").

Quem saíria vencedor do Civic Auditorium de Santa Monica (onde a 10 de Abril de 1968 os Oscars de 67 foram atribuídos), e logo à  segunda nomeação consecutiva, foi Mike Nichols, pela brilhante realização conseguida. Aos 36 anos Nichols abraçava um projecto muito mais pessoal do que o seu primeiro filme, conferindo-lhe uma série de inovações técnicas e de estilo (com a preciosa ajuda do consagrado fotógrafo Robert Surtees, responsável por filmes como "Quo Vadis?", "Mogambo" ou "Ben-Hur") que ainda hoje, passados mais de 30 anos, continuam a mostrar a razão pela qual "The Graduate" foi um filme visualmente tão diferente na sua época (tendo influenciado, pela sua abordagem cinemática, dezenas de fotógrafos e realizadores) e que com o passar do tempo atingiu o estatuto de clássico absoluto.

Finalmente, é de destacar ainda um dos motivos pelo qual "The Graduate" é famoso: as canções de Paul Simon, interpretadas por Simon & Garfunkel. "The Sounds of Silence", "April Come She Will", "Scarborough Fair/Canticle" ou "Mrs. Robinson" (a unica escrita de propósito para o filme e mesmo assim parcialmente, já que a versão completa só foi editada em single após a estreia e o subsequente êxito do filme) são usadas como contraponto da acção, sendo a primeira vez que um filme tinha como suporte musical um conjunto de temas pop. Era um sinal bem claro de como Nichols entendia o espírito dos tempos, entendimento esse que iria fazer de "The Graduate" um marco na história do Cinema.



Citações Memoráveis:

Mr. Braddock: What's the matter? The guests are all downstairs, Ben, waiting to see you.
Benjamin Braddock: Dad, can you explain to them that I have to be alone for awhile?
Mr. Braddock: These are all our good friends, Ben. Most of them have known you since, well, practically since you were born. What is it, Ben?
Benjamin Braddock: I'm just...
Mr. Braddock: Worried?
Benjamin Braddock: Well...
Mr. Braddock: About what?
Benjamin Braddock: I guess about my future.
Mr. Braddock: What about it?
Benjamin Braddock: I don't know...I want it to be...
Mr. Braddock: To be what?
Benjamin Braddock: ...Different.

Mr. McGuire: Ben?
Benjamin Braddock: Mr. McGuire?
Mr. McGuire: Ben.
Benjamin Braddock: Mr. McGuire.

Mr. McGuire: I just want to say one word to you... just one word.
Benjamin Braddock: Yes, sir.
Mr. McGuire: Are you listening?
Benjamin Braddock: Yes, sir I am.
Mr. McGuire: "Plastics."

Benjamin Braddock: Oh my god. Oh no, Mrs. Robinson, oh no.
Mrs. Robinson: What's wrong?
Benjamin Braddock: I mean, you didn't expect...
Mrs. Robinson: What?
Benjamin Braddock: I mean you didn't really think I'd do something like that!
Mrs. Robinson: Like what?
Benjamin Braddock: What do you think?
Mrs. Robinson: Well, I don't know.
Benjamin Braddock: For god's sake, Mrs. Robinson, here we are, you got me into your house, you give me a drink, you... put on music, now you start opening up your personal life to me and tell me your husband won't be home for hours...
Mrs. Robinson: So?
Benjamin Braddock: Mrs. Robinson, you're trying to seduce me... aren't you?

Mrs. Robinson: Would you like me to seduce you? Is that what you want?

Benjamin Braddock: Mrs. Robinson, if you don't mind my saying so, this conversation is getting a little strange.

Room Clerk: Are you here for an affair?
Benjamin: What?
Room Clerk: The Singleman party?
Benjamin: Ah, yes, the Singleman party.

Benjamin Braddock: We could do something else, Mrs. Robinson. We could go to a movie.

Mrs. Robinson: Benjamin, isn't there something you'd like to tell me?
Benjamin: Yes, I want to thank you for this.
Mrs. Robinson: No, the room number. Wouldn't you like to tell me the room number?

[Offering Mr. Robinson a coat hanger.]
Benjamin: Wood?
Mrs. Robinson: I beg your pardon.
Benjamin: Wood or wire, they have both.

Benjamin Braddock: Where did you do it?
Mrs. Robinson: In his car.
Benjamin Braddock: What kind of car was it?
Mrs. Robinson: Come on now.
Benjamin Braddock: No, I really want to know.
Mrs. Robinson: A Ford.
Benjamin Braddock: Goddamn, that's great. So old Elaine Robinson got started in a Ford.

Benjamim Braddock: Mrs. Robinson, I can't do this. It's all terribly wrong.
Mrs. Robinson: Do you find me undesirable?
Benjamin Braddock: Oh no, Mrs. Robinson, I think you're the most attractive of all my parent's friends, I mean that.

Mr. Braddock: Ben, what are you doing?
Benjamin Braddock: Well, I would say that I'm just drifting. Here in the pool.
Mr. Braddock: Why?
Benjamin Braddock: Well, it's very comfortable just to drift here

Mrs. Braddock: What makes you think she wants to marry you?
Benjamin Braddock: Oh, she doesn't. To be perfectly honest she doesn't like me.

Mr. Braddock: Don't you think that idea is a little half-baked?
Benjamin Braddock: Oh no, Dad, it's completely baked.

Elaine Robinson: Good night.
Benjamin Braddock: Are we getting married tomorrow?
Elaine Robinson: No...
Benjamin Braddock: Day after tomorrow?

[last line]
Mrs. Robinson: Elaine, it's too late.
Elaine Robinson: Not for me!

Algumas Curiosidades:

Na cena do primeiro encontro de Ben com mrs. Robinson no quarto do hotel, Anne Bancroft foi apanhada de surpresa quando Dustin Hoffman lhe colocou a mão sobre o peito. Mike Nichols e a equipa técnica começaram-se a rir, contangiando Hoffmann que, para disfarçar, voltou as costas à câmara dirigindo-se para o fundo do quarto onde começou a bater com a cabeça na parede. Com a hilariedade que se instalou no set o realizador esqueceu-se de gritar «corta!» e a cena acabou por ser aproveitada na montagem final.

Após a cena histérica de Elaine no quarto de Benjamim, em Berkeley, o senhorio e outros hóspedes vêm à  porta saber o que se passa. Um deles pergunta se deve chamar a polícia. Trata-se do actor Richard Dreyfuss na sua segunda aparição como figurante num filme. A primeira tinha ocorrido uns meses antes no filme "Valley of the Dolls/O Vale das Bonecas".

Uma das imagens de marca do filme mostra Dustin Hoffmann em contracampo à  perna de mrs. Robinson. Não se trata contudo da perna de Anne Bancroft mas sim a dum modelo chamada Linda Gray.

Existem duas versões da cena de Benjamim com mrs. Robinson no quarto da filha, quando ela vem nua da casa de banho e tranca a porta. Numa, Ben grita «Jesus Christ!» e «Oh, my Christ!»; mas noutra versão, dobrada posteriormente, as palavras são «Jesus God!» e «Oh, my God!».

A canção "Mrs. Robinson" foi o primeiro tema da música popular a conter a palavra «Jesus» na letra.

Jeanne Moreau foi a primeira escolha de Mike Nichols para o papel de mrs. Robinson, mas recusou o convite por se considerar um pouco nova para o personagem, além de não querer interpretar uma mulher americana. O papel foi ainda recusado por Doris Day e Patricia Neal.

Na cena final, quando Benjamim aparece no alto do interior da igreja de braços levantados e estendidos, muitos crí­ticos viram nessa pose uma alusão à  imagem de Cristo. No entanto, a intenção foi muito mais simples e prosaica. Tendo o vidro sido recentemente oferecido à  igreja, o padre só autorizou as filmagens desde que o actor não se apoiasse directamente sobre o vidro, que era tido como demasiado frágil.

Mike Nichols utilizou a actriz Eddra Gale (a mulher no autocarro) em homenagem ao filme de Federico Fellini "8 1/2", no qual ela desempenha o papel de La Saraghina.

SOUNDTRACK:

The Sounds of Silence"
escrito por Paul Simon
interpretado por Simon and Garfunkel

"April Come She Will"
escrito por Paul Simon
interpretado por Simon and Garfunkel

"Scarborough Fair/Canticle"
escrito por Paul Simon and Art Garfunkel
interpretado por Simon and Garfunkel

"Mrs. Robinson"
escrito por Paul Simon
interpretado por Simon and Garfunkel

"The Singleman Party Foxtrot"
escrito por Dave Grusin

"Sunporch Cha-Cha-Cha"
escrito por Dave Grusin

"On the Strip"
escrito por Dave Grusin

"The Folks"
escrito por Dave Grusin

"A Great Effect"
escrito por Dave Grusin

"The Big Bright Green Pleasure Machine"
escrito por Paul Simon
interpretado por Simon & Garfunkel

"Whew"
escrito por Dave Grusin

BUSCAS NO SÓTÃO 



Verdadeiro grupo-de-culto português, que começou por tocar (corria o Verão de 68) nas instalações da Torralta, no Alvor, onde foram descobertos pelo saudoso jornalista Fernando Assis Pacheco e pelo Duo Ouro Negro. O primeiro escreveu uma crónica elogiosa no Diário de Lisboa intitulada “Uma Fraude nas noites brancas do Alvor”. Os segundos levaram uma cassete com alguns temas à editora Valentim de Carvalho que lhes faculta a gravação de algumas maquetas das canções. No entanto, o grupo acaba por assinar com a Philips, onde para além do album “Epopeia” grava ainda dois extended-play, em 1969. O 1º EP, que é a estreia do grupo, contém temas originais e adaptações da música popular portuguesa, da autoria de António Pinho e Luís Linhares: "Flor de Laranjeira", "Problema da Escolha", "O Menino" e "O Milhões". A crítica social, a mordacidade e ironia nas letras e a música com influências da pop inglesa (sobretudo Beatles), são imagens de marca que ficam desde logo a assinalar o conjunto. O êxito é imediato e a crítica é unânime em elogiar o trabalho, classificando a Filarmónica Fraude como um «caso muito sério» e «uma pedrada no charco e no marasmo da música portuguesa» ou ainda, como se escrevia na contracapa do disco, «a certeza que a única fraude que existe pertence ao nome do conjunto».

Pouco tempo depois, um 2º EP vinha confirmar tudo quanto se dissera a respeito do primeiro: "Canção de Embalar", "Orícia", "Animais de Estimação" e "Devedor à Terra" cimentam a reputação que o grupo granjeara logo no início da carreira.
E finalmente o album "Epopeia", cujo alvo principal eram os infortúnios dos descobrimentos e que por isso mesmo trouxe alguns dissabores junto aos censores da época; a começar logo pela capa (uma autêntica originalidade na altura, pelo feitio e modo de abrir), da autoria de Lídia Martinez, que a assinou «Lídia 69». A maqueta da capa não passou na censura, que obrigou ao corte da indicação do ano. A Filarmónica Fraude acaba nos finais de 1970 (sem editarem mais nenhum disco), dando depois lugar à Banda do Casaco.



Em 1998 a Polygram Portuguesa edita o album em cd mas com uma masterização obtida directamente de um disco de vinil original; ou seja, com um som bastante medíocre, pelo facto de não se terem dado ao trabalho de fazer uma recuperação sonora em condições. É pena, até porque a qualidade do trabalho da Filarmónica Fraude é merecedora duma digitalização eficiente, mais que não seja para uma coveniente preservação futura. Esperemos que num futuro próximo tenhamos motivos de nos regozijarmos caso os responsáveis da editora nos consigam presentear com uma edição conjunta de todos os temas gravados pelo grupo.

domingo, setembro 21, 2003

RIFÃO DE FERNÃO TANOEIRO 

...
estou a lembrar-me agora
da história que me contava
um tio antigo
dizia ele nessa altura
olha sobrinho
meu amigo
entre a ratazana
e o cagalhão
há apenas
um intervalo sacana
é o primeiro-ministro
da nação.

obrigado tio
está confirmada
a sua opinião.


(Mário-Henrique Leiria in "Fábulas do Próximo Futuro", 1978)

ESCUTA PERMANENTE 

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TAKE THIS LONGING

Many men have loved the bells, you fastened to the rain
and everyone who wanted you, they found what they will always want again
your beauty lost to you yourself just as it was lost to them.

Oh take this longing from my tongue
whatever useless things these hands have done
let me see your beauty broken down
like you would do for one you love.

Your body like a searchlight, my poverty revealed
I would like to try your charity until you cry "Now you must try my greed"
and everything depends upon how near you sleep to me.

Just take this longing from my tongue
all the lonely things my hands have done
let me see your beauty broken down
like you would do for one your love.

Hungry as an archway through which the troops have passed
I stand in ruins behind you, with your winter clothes, your broken sandal straps
I love to see you naked over there, especially from the back.

Oh take this longing from my tongue
all the useless things my hands have done
untie for me your hired blue gown
like you would do for one that you love.

You're faithful to the better man, I'm afraid that he left
so let me judge your love affair in this very room where I have sentenced mine to death
I'll even wear these old laurel leaves that he's shaken from his head.

Just take this longing from my tongue
all the useless things my hands have done
let me see your beauty broken down
like you would do for one you love.


(Leonard Cohen, Agosto 1974)

DISCOTECA BÁSICA 

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SONGS OF LOVE AND HATE (LEONARD COHEN, 1971)


(Avalanche – Last Year’s man – Dress Rehearsal Rag – Diamonds In The Mine – Love Calls You By Your Name – Famous Blue Raincoat – Sing Another Song, Boys – Joan Of Arc)

LP editado em Março de 1971 nos EUA (CBS, 30103)
LP editado em Março de 1971 na GB (CBS, 69004; #4)
CD editado em Maio de 1994 (Sony, 4767992)
www.fnac.pt (12,20 €)

LEONARD COHEN 

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Uma das referências incontornáveis da música popular anglo-america, este canadiano errante cujo nome se encontra definitivamente ligado a outros ícones dos anos clássicos do Rock (fim dos 60 e princípio dos 70), não podia contudo ser mais diferente, social e intelectualmente, do que qualquer outra “estrela” da sua geração. Nascido a 21 de Setembro de 1934 em Montreal, filho de um engenheiro judeu dono de uma loja de roupa (falecido 9 anos depois), Cohen só vem a iniciar a sua carreira discográfica aos 33 anos, com a publicação do album “Songs of Leonard Cohen” em Fevereiro de 1968.
Durante os largos anos que antecederam este início tardio, e numa época em que o sonho americano estava mais vivo do que nunca, Cohen vive uma vida de autêntico boémio, entre mulheres e experiências com drogas (na altura o LSD era ainda legal), tornando-se rapidamente uma das figuras mais conhecidas dos meios culturais canadianos. Publica diversos livros de poesia nos quais coloca já os temas básicos que se tornarão inseparáveis da sua obra: a história e o misticismo, numa dualidade judaico-cristã, colocando uma forte oposição entre o Belo e o Feio, a Pureza e a Corrupção, o Espírito e a Carne. Já nos anos sessenta, e depois de uma breve passagem pela Universidade de Columbia em Nova Iorque, Cohen viaja para os confins da América do Norte, partindo depois para a Europa, onde se estabelece na ilha de Hydra, na Grécia. Aí compra uma casa com o dinheiro deixado em herança por uma avó recém-falecida, e durante 7 anos compartilha a vida nesse local com Marianne Jenson e o filho, Axel. Continua a escrever poesia e inicia-se também no campo novelístico com a publicação dos primeiros romances. O segundo, intitulado "Beautiful Losers" constitui até hoje o maior sucesso bibliográfico do autor. Na altura, o Boston Globe escreveu - «James Joyce não moreu. Vive em Montreal sob o nome de Cohen».



De regresso aos EUA em 1967, Cohen decide fixar-se em Nashville e iniciar uma carreira musical. Judy Collins inclui dois temas da sua autoria ("Suzanne" - que Cohen lhe chega a cantar por telefone - e "Dress Rehearsal Rag") no album "In My Life", e convida o compositor a interpretar as suas próprias canções num concerto em Central Park. Cohen aparece ainda no Festival Folk de Newport, onde desperta a atenção de John Hammond (responsável pela descoberta, entre outros, de Billie Holiday, Bob Dylan e Bruce Springsteen), da Columbia Records, que o contrata para a gravação de um album. Esse album seria o clássico "The Songs Of Leonard Cohen" onde, entre os 10 temas gravados, aparecem os incontornáveis "Suzanne" (que abre o disco), "Sisters Of Mercy", "So Long, Marianne" e "Hey, That's No Way To Say Goodbye". É um album de canções de amor mas onde se notam já as obsessões eternas: a inveja, a traição e a atracção/repulsa da Pátria. A fórmula musical já está estabelecida, o estilo semi-narrativo e simbólico já se apresenta na sua forma definitiva e o conteúdo está determinado. Todas as canções futuras de Cohen encontram-se já neste album de estreia: dramáticas, recheadas de imagens poderosas, geralmente "maiores" do que a realidade que ilustram. O amor é mais amoroso, a beleza é mais bela, a tristeza mais triste e o amor físico mais físico. É um universo encantado de desespero e de êxtase, de fé e de desilusão, de amor e de ódio. O album atinge o 13º lugar em Inglaterra mas fica-se pelo 83º lugar nos EUA (aliás uma constante ao longo de toda a sua discografia, em que os albuns de Cohen seriam sempre muito mais apreciados no continente europeu do que no americano).

Em Abril de 69 sai "Songs from a Room", o mais popular album de Leonard Cohen (top 2 na Grã-Bretanha). Contém "Bird on the Wire", um dos grandes temas do cantor e a primeira incursão na língua francesa, "The Partisan" (da autoria de Ana Marly e Hy Zaret).

Na contra-capa aparece uma fotografia de Marianne, numa divisão da casa de Hydra. O intimismo que se evola deste disco quase que o torna monótono sendo isso, segundo os críticos, a principal qualidade deste trabalho. Quase todas as composições se referem a uma vivência social ligada com o amor - as mulheres na vida de Cohen - destacando-se, em excepção, a política e já citada "The Partisan" (o guerrilheiro) em que o poeta se coloca do lado da resistência, contra o nazismo e qualquer forma de imperialismo. Duma maneira geral, este album é muito menos pessoal do que o primeiro e está mais imediatamente preocupado com a dimensão social da natureza gulosa e egoísta, idealista e generosa do homem. A dualidade existe e não é decomposta - simplesmente, Cohen ora traz o bem, ora traz o mal à superfície, sem chegar a conclusões. Esta será a prova da sua honestidade mais contundente.

Em 1970 dá o primeiro recital no Olímpia de Paris e Março do ano seguinte vê o aparecimento de "Songs of Love and Hate", por muitos considerado o melhor album de sempre de Cohen, que consegue chegar ao 4º lugar no Reino Unido. De "Avalanche", passando por "Famous Blue Raincoat" e até "Joan Of Arc", são oito pérolas da música popular anglo-americana que solidificam, em definitivo, o universo melancólico e solitário do compositor: constituem uma colecção de canções que são documentos dum desespero quase final, não sendo exagero afirmar que são os temas mais deprimentes de toda a história da música popular, debruçados para o suicídio e sem uma única faísca de esperança. A maior parte fala do homem falhado que, ao examinar toda a sua vida, não vê nada que não esperanças reveladas como absurdas e depois destruídas. Nem o passado possui o que quer que seja de lindo, nem o presente pode ser mais miserável. Não há futuro, é uma depressão completa, sem luz. "Songs of Love and Hate" só tem duas canções de amor - as restantes são de ódio. Até aqui, quando Cohen falava de amor, era sempre num contexto de despedida e de ausência, um pouco como acontece com o Fado. Mas a beleza não se perdia, e a memória não se despedia - toda a saudade retinha o consolo do passado. Neste album, porém, o amor nada deixa, não valeu a pena, foi só pena - e a sua partida também é só isso: pena, piedade, amargura. A saudade não é a lembrança dum bem passado, mas a consciência amarga dum bem apodrecido e debilitante, a escuridão profunda da desilusão.

Depois de um disco ao vivo com 4 canções inéditas (“Live Songs”, de Abril de 73), estreia em Londres, em 1974, no Rainbow Theater, "Bird on the Wire", um filme dirigido por Tony Palmer constituído por documentários fílmicos dos concertos ao vivo de Cohen durante a sua última tournée. Em Agosto é o retorno às gravações de estúdio com a edição de "New Skin for the Old Ceremony". A "velha cerimónia" é, evidentemente, o acto do amor. Ou do ódio, ou da revolução, ou do canto... Todas as imagens do passado coexistem. Depois da escuridão de "Love and Hate", "New Skin" marca um renascimento. O poeta sobreviveu, criou calos, recuperou uma espécie de beleza. Pela primeira vez de sempre, surge o humor seco e irónico de Cohen em toda a sua glória, no auto-retrato "Field Commander Cohen" e na canção tragicómica "There is a War", uma composição que revela a dualidade (ricos e pobres, homens e mulheres, etc.) que está na base de toda a sua obra. Há também um regresso ao amor brando do primeiro album, com "Take this Longing", se bem que já não haja qualquer indício de platonismo. "Take this Longing" é uma belíssima afirmação de desejo, de lonjura, de força carnal. Finalmente, as obsessões religiosas vêm ao de cima em "Who by Fire" - o fogo da redenção e do sacrifício, da purificação e da morte. "New Skin for the Old Ceremony" é, portanto, o album mais claramente diversificado de todos - é uma colecção que não mostra o mais pequeno desequilíbrio. A qualidade dos textos e das melodias obedece sempre ao critério imperdoavelmente severo de Leonard Cohen e, neste sentido, é mais um trabalho perfeito que fica, para sempre.

Depois de um intervalo de três anos (apenas uma compilação dos primeiros albuns, sem nada de novo, é editada em 1975), aparece "Death Of A Ladies' Man" em Novembro de 77, olhado ainda hoje como seu album mais estranho e experimental. Chamando o produtor Phil Spector para fazer os arranjos e produzir as canções, Cohen tentava ganhar um auditório mais vasto. O resultado foi catastrófico - o album fracassou, tragicamente mutilado pelos excessos de Phil Spector. Mesmo assim, apesar de todo o mau-gosto dos arranjos, as letras continuam a impressionar e transmitem uma nova obsessão. "Ladies Man" é um trabalho sobre a impotência sexual - ora no seu aspecto mais circular (o ciúme, que aqui toma a forma dum homem que ouve a mulher que ama a fazer amor com outro homem, num quarto de hotel contíguo ao seu), ora no seu aspecto imediato (na canção, aliás péssima, "Don't go Home with your Hard-on"). As mulheres são criaturas vorazes, de pernas permanentemente abertas, exibindo o seu prazer singular como uma espécie de poder sobre o homem. O envelhecimento de Cohen, ou seja, a perda da sua juventude física (pois a emocional perdera-a em "Songs of Love and Hate"), resulta numa amargura estúpida e pouco característica. O título - morte dum conquistador - revela com dolorosa precisão o estado mental de Cohen, que passa de amante-participante a "voyeur". Ao todo, é um album artificial, uma experiência improdutiva, de que aliás o próprio Cohen parece ter-se dado conta através de entrevistas que na altura concedeu.

"Recent Songs", editado em Setembro de 79, é o album da redenção. Regressando com uma pureza alucinante às suas velhas perguntas, em textos saturados de uma tristeza que aprendeu a viver consigo próprio, e ajudado por novas instrumentações de sabor oriental, Leonard Cohen produz uma obra cheia, redonda e liricamente perfeita. Reconciliado com a sua velhice, retoma a sua luta ingrata com os seus demónios predilectos - o amor, a tirania da possessividade, o país natal, a saudade insolúvel - e reaparece com uma vitalidade que não se via desde 1974. É o arranque duma nova ilusão, a esperança duma nova beleza e a afirmação da religiosidade rejeitada no album anterior.
Com a música, nos anos 80 a ser cada vez mais publicitada através do video, a atenção de Cohen debruça-se sobre este novo meio de divulgação, começando a dirigir os seus próprios trabalhos. "I am a Hotel", um documentário seu de meia-hora ganha o 1º prémio no Festival Internacional de Televisão de Montreux (Suiça, 1984).

Depois de um longo interregno de cinco anos chega finalmente em Fevereiro de 85 o novo e tão ansiado trabalho de Cohen, "Various Positions". É o início da fase mais comercial do autor que, aos 50 anos, consegue surpreender toda uma nova geração, sobretudo musicalmente. Quanto aos textos, Cohen apresenta-nos verdadeiros salmos contemporâneos em temas como "Hallelujah" ou "Heart with no Companion" - é o florescer de todos os conceitos religiosos, fruto sem dúvida de uma longa e espiritual odisseia. Ainda neste ano colabora com o cantor/compositor Lewis Furey em "Night Magic", uma rock opera que ganha o prémio canadiano Juno para a melhor banda sonora do ano.
Jennifer Warnes edita em 1986 o aclamado "Famous Blue Raincoat", apenas com canções de Cohen, dando início a um revivalismo de toda a obra do compositor traduzido mais tarde em diversas compilações de "covers" por parte de músicos das mais variadas correntes musicais.



"I'm Your Man", editado em Fevereiro de 88, é o culminar da carreira comercial de Cohen, prolongando o êxito obtido com o album precedente. Recheado de clássicos instântaneos como "First we take Manhattan", "Tower of Song", "Take this Waltz" ou a faixa-título, "I'm your Man", é sem surpresa que o album atinge o 1º lugar de vendas em diversos países europeus.

Nos últimos 15 anos Cohen vem a publicar apenas mais dois albuns de originais: “The Future” (em Novembro de 92) e o mais recente “Ten New Songs” (Outubro de 2001), entre algumas compilações e albuns ao vivo. Ambos os trabalhos (separados entretanto por uma vivência budista do autor, que se refugia durante vários anos num mosteiro) denotam um grau de maturidade invulgar para um homem que na sua juventude apenas queria ser um poeta com algum talento. Em entrevistas recentes Cohen afirmava: «O meu trabalho é equivalente ao do jornalista que tem por missão dar as notícias, tal como elas se lhe apresentam. Não tento analisar a sociedade ou transmitir qualquer visão geopolítica. Escrevo apenas as histórias que vejo acontecer à minha volta. E apesar dessa escrita me ser a maior parte das vezes penosa e demorada (gostaria de ter o talento de muitas pessoas que conseguem escrever coisas maravilhosas no banco de trás de um táxi, mas infelizmente não é esse o caso) ela denota apenas a maneira como reajo aos acontecimentos que me envolvem e que constituem a minha vida».

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